amor · sociedade

Como água

paulo d campos
Ilustração de Paulo D. Campos

Você era como uma hidrelétrica. Imponência misteriosa. Parecia carregar dentro de si uma profundidade repleta de águas vividas. Para quem é acostumado a conhecer córregos e observar rios passageiros, você foi alguém inalcançável e impenetrável. Mas criei coragem. Muita coragem. Fui até você, troquei as primeiras palavras e mantive firme o olhar de quem quer em ti mergulhar. E você abriu as comportas do seu ser. Deixou-se fluir como outro rio qualquer, que no início parece volumoso, mas tem momentos de inconstância e, no final, deságua no mesmo oceano de seres humanos. Todos similares entre si. Em substância. Como água.

amor · passado · realidade · romance · rotina

Sem vida

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Marina Esmeraldo

Acordou ao lado de mais uma estranha. A luz do celular despertou uma dor de cabeça que provavelmente o acompanharia pelo resto do dia. Saiu daquela cama desconfortável. Pensou no trabalho atrasado. Saiu com a boca impregnada pelo álcool da noite passada. Invadiu o trânsito da cidade que já fervia. Retornou àquele ambiente que chamaria de casa, se não fossem todas as lembranças que ainda transmitia. Memórias de uma vida que achava perfeita demais para ter sido vivida por ele. Mas que se findou e o deixou órfão no mundo. Deixou-o ser mais um homem a repetir suas tarefas dia após dia. Mais um humano que fugia das lembranças. Que corria para os braços de experiências desconhecidas. Só para preencher o vazio que ficara. O vazio que pesava sua existência no presente. De um passado que tinha nome de mulher. Uma mulher que não sabia onde estava mais. Que vive em outra conexão. Ou que nem vive mais. Como ele, que apenas segue sem vida.

amor · paixão · romance · sedução

Em descoberta

eulalia pessoa
Eulália Pessoa

Passou os dedos por todo o seu corpo. Fez arrepiar os pelos. Sentiu como se ele fosse pássaro a espalhar o pólen de sua flor por todo território possível. Mas ele era mais que pássaro. Ele incorporava animais que não conseguia nomear. Não conseguia pensar exatamente. Pensamento já era o que não conseguia acompanhar. Sentia apenas. Seguia cada toque, envolvimento, sensação. Deixou-se florir em pleno outono. Contrariou toda ordem da natureza. Recriou seu próprio meio ambiente naquele instante, numa penumbra, com aquele homem. Criou um cosmos inteiro para ser habitado só por aqueles dois amantes. Seres em pura descoberta. Em puro despertar.

aprendizado · aquarela · Diário de Aprendiz

Diário de Aprendiz #01

Compartilhar faz parte da minha essência. Quem me conhece pessoalmente sabe que sou muito transparente. O que sinto escapa pelos gestos, pelos traços do rosto, pelo jeito de se comportar. Então, compartilhar o que sinto é natural e acontece sem eu nem ter intenção. Mas esses relatos pessoais que começo hoje a compartilhar com vocês vem cheios das melhores intenções. A partir de hoje, compartilho meu aprendizado artístico semanalmente com vocês. E espero que gostem!

Ano novo traz certa “magia” para as pessoas. Esse 2018, especialmente, veio cheio de impulso para mim. Impulso para fazer o que me faz feliz e aprender o que me atrai. Eu sinto que não posso mais negar que não sou feita para algumas coisas e feita para outras. Cada pessoa tem suas aptidões, conexões, inspirações. Arte é uma das conexões fortes em mim. Apesar de sempre sentir isso, nunca me esforcei plenamente nesse sentido. “Não dá para viver de arte nesse país”, “como vou pagar meus boletos com isso?” são algumas das frases que sempre disse para mim e para os outros. A realidade para os artistas continua dura, nada mudou. Continuo não pagando nada com o que faço. É difícil fazer arte ser consumida. Ainda mais quando essa arte é a escrita. Mas não quero aqui debater meus dilemas sobre isso. Acontece que realmente insistindo nesses pontos de vista, eu não vou conseguir mudar essa realidade. Nem para mim e nem para os outros. Falo isso tudo para contextualizar sobre como eu era e como estou me esforçando em ser, para mudar minha forma de me ver, pelo menos. Daí o porquê de eu ter feito essa “resolução de ano novo”: me conectar mais com o que gosto.

E para começar a realizar esse impulso, fui em oficinas gratuitas que o Sesc de São Paulo ofereceu na segunda semana de janeiro: aquarelas, desenho e pintura com lápis de cor. Gostei tanto, especialmente da aquarela, que logo me inscrevi em 2 cursos que vão até final de fevereiro. A primeira foto acima (lado esquerdo), tirei durante a oficina de experimentação de aquarela como experiência poética (inspirada nas obras de Paul Klee, essa foi minha primeira aquarela!). A segunda foto embaixo e a do lado direito (resultado final): foram tiradas na segunda oficina de aquarela que fui. Ambas práticas foram feitas sobre a orientação da artista Renata Cruz.

Sobre a segunda foto, a ideia era aquarelar um objeto que, em primeira vista, fosse insignificante e acrescentar uma frase tirada de livros literários que levamos para a aula. Escolhi aquarelar o pincel da professora. Peguei o primeiro livro que estava por perto e abri em uma página aleatória. “Quero escrever movimento puro” foi a frase que saltou ao olhar. Autoria da incrível Clarice Lispector. A união entre o objeto e a frase foi perfeita, apesar de não programada. Para quem tem a escrita como arte, estar diante dessa frase e dessa nova experiência artística foi mais um impulso que o universo estava me dando. Isso me emocionou profundamente! Se pudesse transmitir essa emoção, o faria para vocês. Mas o que me resta é transmitir essa memória e pensamentos.

Não costumo escrever tanto assim, isso não irá se repetir – ao menos não estou planejando isso – mas como é a primeira publicação do “diário de aprendiz”, achei que seria bom começar assim. Pra quem chegou até o final desse relato, desejo que você se inspire a fazer o que realmente gosta e possa ser plenamente feliz!