aprendizado · autoconhecimento · feminismo · vida

Realmente ser

daria conto
Daria Hlazatova

Passeava pela calçada da sua rua, despreocupada, como há tempos não se sentia. Carregava nas mãos os calçados sociais do trabalho, que acabara de deixar para trás. Pés descalços na rua e não se importava com a poeira citadina que ia se acumulando ali no seu passo descompassado. Com o respirar tranquilo, soltou o cabelo e deixou formar as ondas naturais para os lados que bem quisessem. Não tinha que se arrumar mais para ninguém. Nem formatar alguma imagem para ser admirada. Tampouco mandar mensagem avisando que saiu do trabalho para dar satisfação àquele cara, mais um no rol dos “ex”. E mesmo desempregada, desacompanhada e desarrumada, nunca sentiu tamanha liberdade e satisfação pessoal explodir dentro do peito como naquele momento. Finalmente conseguiu, depois de muito planejamento, entregar-se ao acaso desplanejado de uma vida liberta. Aberta a ser a mulher que realmente era. Quem realmente queria ser.

aprendizado · depressão · sofrimento · tristeza · vida

Baseado em dores reais

nataliefoss
Natalie Foss

Chora-se, mas é preciso descongestionar as narinas para respirar, pois a vida segue e respirar pela boca é incômodo. Como é perceptível: o corpo ensina. É preciso aprender com a força e o fluxo de vida que pulsa, independente dos dramas, frustrações, sonhos impossíveis que cultivamos na mente. Há sempre um impulso de realidade vibrando nossa existência no sentido de superar cada choro, cada dor. Toda lágrima seca. Todo choro cansa. A vida continua. E constatar isso, após tanto lamento e confusão mental, é tão prazeroso quanto o respirar livre e calmo após o choro recém vivido. Experimente só a calma pós-pranto… Haverá de confirmar! E uma ficha – dessas que demoram a cair, mas sempre caem em algum instante – é que: baseado em dores reais, isso é viver.

autoconhecimento · saúde · vida

Reiniciar o sistema

ismael nery
Ismael Nery

Foi preciso o corpo desligar para que ele acordasse da vida que o matava dia após dia. Acordou para dentro de si. Enxergou o que não enxergava mais, depois de anos se sacrificando para viver algo presumivelmente ideal. Trabalhava tanto, num ritmo frenético. Pagava as contas em dia, mas elas não findavam por completo, só se multiplicavam. Era servo das obrigações. Escravo da eterna necessidade de consumir e progredir financeiramente. Porém, em tantos anos assim, nenhum progresso em saúde física e mental ele havia alcançado. Nesses critérios, só involução. Por isso, seu corpo desligou. Não morreu, mas lhe serviu como um susto para que passasse a olhar o que realmente importava. Para que despertasse da ilusão que é crer que felicidade está na conta corrente com saldo positivo, ainda que a mente fique com energia em saldo negativo. Desligou e depois reiniciou na conexão certa.

depressão · realidade · sofrimento · solidão · tristeza · vida

Sem propósito

eddy
 Eddy Stevens

Bateu um desespero forte no fundo do peito sozinho. Sentiu as lágrimas quentes queimarem a pele suja de dias sem cuidado. Lamentou sua fraqueza. Desfez-se em choro. Incompreendida de si, não tinha razão determinada para aquele sofrer. Chorava por nada que era. Nada que vivia. Apenas a incerteza das manhãs e a certeza noturna de dormir para acordar noutro dia cheio de incertezas. Vazia de propósitos, lentamente vivia. Uma vida que não reconhecia sua. Imersa num dia a dia tão sem rumo. E o pior era não saber para qual rumo correr para ser mais feliz. Talvez fosse essa falta de compreensão sobre si mesma que a fazia desesperar-se todo dia. Era só mais uma humana vivendo sem sentido. Haveria alguma dor maior do que essa de viver sem propósito? Não sabia. E quanto mais afundava no próprio choro, mais profundo era seu sufoco. Talvez seja isso que chamam depressão. Uma pressão mental exercida sobre a própria mente. Comprimindo tudo o que era numa vazio que achava viver. Num nada que achava ser. E todas essas reflexões são versos que escapam pela mente de quem chora sua própria depressão. Lágrimas que escorrem agora. Mundo afora.

família · infância · realidade · vida

Revelação

sophia
Sophia – Christos Tsimaris

Nada é para sempre. Aquela frase e seu significado tão pesado chegou à compreensão da menina numa noite qualquer, antes de dormir. De repente ela imaginou que ela não teria seus pais para sempre. Não teria a mesma casa. Os mesmos amigos. E que o príncipe encantado talvez não seja o pai dos seus filhos ou o marido presente até sua velhice. Talvez na velhice, não reste mais nada nem ninguém além dela mesma. E pior… Talvez, nos últimos instantes da sua pequena vida ela perceba que nem ela era suficiente para preencher aquele espaço chamado de “para sempre”. E aquilo foi extremamente assustador, de início. Mas como nada é para sempre, logo após adormecer, toda essa revelação se esvairia e a pequena menina amanheceria no outro dia sem se preocupar com o que era para sempre ou não. Ao menos, por enquanto.

cotidiano · liberdade · rotina · Sem categoria · vida

Pausa na vida

tarak
Mysterious Connection-1 – Tarak Mahadi

De repente, todos os seus dramas diários se esvaíram. Uma completa apatia preencheu seu tanque de combustível mental. Parou na vida. Não conseguiu distinguir exatamente o que levou àquela pausa tão desnorteadora. Apenas não via qualquer sentido em se esforçar tanto naquela rotina em que estava inserido. Não sentia ânimo para continuar a melodramatizar os desafios do cotidiano. Mesmo tantos prazos correndo próximos do fim, mesmo tantas pessoas ao redor motivando-o a seguir e mais: a conseguir cada vez mais! Mesmo com tanta coisa por ocorrer, simplesmente parou. E aquele dia pareceu tão sem sentido e ao mesmo tempo tão libertador! Respirou sem pensar em nada e apenas desejou não desejar nada. Mas acabou desejando no final mais dias como aquele. Por mais pausas apáticas. Por mais tempo em que o tempo escapando pelos dedos pouco importasse. Apenas queria uma dose diária disso tudo no meio dos seus tantos dramas da vida. Talvez seria essa apatia um combustível menos prejudicial ao seu meio ambiente mental. Talvez… Ou não… Pouco se importava com isso, afinal. Pelo menos, não naquele breve momento de pausa da vida.

amor · vida

Doadora de amor

frida
Duas Fridas – Frida Kahlo

Ela era amor em essência. E tinha a felicidade de saber que morava em muitos corações. Esse conforto de se ter um coração onde morar era o que mais a movia. Proporcionar o bem, para o maior número de pessoas, conhecidas ou não, a fazia crer que era cada vez mais forte contra os males do mundo. E conseguia sentir essa força toda vez que terminava sua doação de amor… Ou melhor, de sangue. A cada doação, sabia que parte de sua essência faria morada no coração de alguém. Uma morada sincera e cheia de gratidão, pois esse coração continuaria a pulsar, graças ao seu simples gesto de amor. E assim, ela ia distribuindo amor sempre que possível. Ia se tornando mais forte. Ia vivendo em diversos corações.