aprendizado · depressão · sofrimento · tristeza · vida

Baseado em dores reais

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Natalie Foss

Chora-se, mas é preciso descongestionar as narinas para respirar, pois a vida segue e respirar pela boca é incômodo. Como é perceptível: o corpo ensina. É preciso aprender com a força e o fluxo de vida que pulsa, independente dos dramas, frustrações, sonhos impossíveis que cultivamos na mente. Há sempre um impulso de realidade vibrando nossa existência no sentido de superar cada choro, cada dor. Toda lágrima seca. Todo choro cansa. A vida continua. E constatar isso, após tanto lamento e confusão mental, é tão prazeroso quanto o respirar livre e calmo após o choro recém vivido. Experimente só a calma pós-pranto… Haverá de confirmar! E uma ficha – dessas que demoram a cair, mas sempre caem em algum instante – é que: baseado em dores reais, isso é viver.

amor · carnaval · romance · tristeza

Amor de carnaval

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Vânia Mignone

Pintei meu rosto com as cores do teu gosto. Sinalizei meu olhar com purpurina para te encantar. Sai com a alegria mais sincera que eu possuía. De bloco em bloco, cantando tuas músicas preferidas. Registrei todo meu percurso, joguei no mundo virtual, só a espera de te encontrar no real. Mas o samba acabou, o pagode passou, o axé deixou de retumbar. Nem todo álcool sustentou meu arfar. As dores no corpo – já não tão novo como nos primeiros carnavais – se espalharam até o calcanhar. Mas a pior dor foi por aqui não te encontrar. Nem contigo dançar. Ou na tua boca mergulhar. E esse foi o primeiro carnaval sem ti. O que devo fazer? Esperar até o próximo fevereiro para te ver? Não dá para saber. Mas penso que sim. Já que é de carnaval em carnaval que esse amor se faz. Sigo te amando. Enquanto durarem as cores na avenida. Enquanto no meu rosto brilharem as purpurinas.

Sinto que vou esperar. Já que amor de carnaval tem disso de ser alegre e esperançoso. Ainda que o resto do ano seja incerto e desastroso. Sigo o passo, o ritmo, até te rever.

depressão · realidade · sofrimento · solidão · tristeza · vida

Sem propósito

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 Eddy Stevens

Bateu um desespero forte no fundo do peito sozinho. Sentiu as lágrimas quentes queimarem a pele suja de dias sem cuidado. Lamentou sua fraqueza. Desfez-se em choro. Incompreendida de si, não tinha razão determinada para aquele sofrer. Chorava por nada que era. Nada que vivia. Apenas a incerteza das manhãs e a certeza noturna de dormir para acordar noutro dia cheio de incertezas. Vazia de propósitos, lentamente vivia. Uma vida que não reconhecia sua. Imersa num dia a dia tão sem rumo. E o pior era não saber para qual rumo correr para ser mais feliz. Talvez fosse essa falta de compreensão sobre si mesma que a fazia desesperar-se todo dia. Era só mais uma humana vivendo sem sentido. Haveria alguma dor maior do que essa de viver sem propósito? Não sabia. E quanto mais afundava no próprio choro, mais profundo era seu sufoco. Talvez seja isso que chamam depressão. Uma pressão mental exercida sobre a própria mente. Comprimindo tudo o que era numa vazio que achava viver. Num nada que achava ser. E todas essas reflexões são versos que escapam pela mente de quem chora sua própria depressão. Lágrimas que escorrem agora. Mundo afora.

amor · medo · sofrimento · tristeza

Medos omitidos

medo
Kris Knight

“Eu estava chorando, meu amor. É que estou com medo de te perder. Eu me sinto insuficiente para ti nos últimos anos. Como se você tivesse evoluído tanto e eu, sem querer, tivesse ficado parada, sem me mover, em algum estágio muito anterior a sua evolução. E não quero te impedir de evoluir, tampouco quero deixar você ir sem mim. Eu não me reconheço sem você. Por isso choro quase todos os dias…”
Ela sentiu o nó na garganta. Pestanejou e afastou todos aqueles pensamentos. Apenas respondeu seu namorado com uma frase rápida “acabei de acordar, por isso meus olhos estão inchados” e um riso forçado. Não era a primeira vez que ele perguntava porque aquele inchaço no olhar da mulher. E ela sempre tinha que engolir aqueles pensamentos, aquelas verdades, afinal, não queria nunca ter que assumir seus medos. Não queria correr o risco de ser frágil e perder sua única fortaleza: o seu amor. Sem saber, no entanto, que a cada dia que escondia esses medos era mais um passo atrás da evolução que ela tanto queria fazer também.

defeitos · morte · saúde · sofrimento · tristeza · vida

Colecionadora de perdas

colecionadora
The Physician (detail) –  Christina Ridgeway

Você não tem coração. Foi o grito quase cuspido na sua cara. Ela não se importaria com isso se fosse qualquer outro dia. Mas aquele era o começo de um plantão e já teve três pacientes falecidos. E ali na sua frente, uma mãe chorando em prantos, a culpava pela morte do filho. Ela era médica de urgência há tantos anos. No início, uma morte era uma pedra bastante pesada para carregar. Mas com o tempo foi diminuindo o tamanho dessas pedras, para que ficasse mais cômodo carregá-las. Deixou seu emocional de lado e adotou seu lado mais racional. Assim, com o tempo, era uma médica que colecionava pedrinhas. Muitas vidas foram salvas. Mas isso não a fazia abandonar aquelas pedrinhas. Até ouvir aquelas palavras. Uma pontada de emoção veio com força ali onde a mulher dizia faltar um coração. E a médica fugiu para seu consultório. Deixou suas pedrinhas se transformarem em lágrimas e, como nunca antes, desabou em choro. Mas foi aí que ela pegou o estetoscópio sempre pendurado no pescoço, colocou nos ouvidos e pôs no próprio peito para ouvir seu coração. Esse simples gesto a fez retomar a racionalidade de antes: afinal, havia um coração ali. Engoliu o choro. Limpou as lágrimas. E foi colecionar outras pedras. Colecionar mais perdas.

sofrimento · solidão · tristeza

Doses amargas da vida

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Close up broken hearted woman – Thomas Saliot

Desceu goela abaixo e retumbou no fundo do peito uma dose da mais amarga solidão. Não escolheu essa bebida tão forte naquela hora do dia. Mas a vida é bar onde seus visitantes tomam aquilo que a vida mesmo escolhe para servir. E servida daquele copo, com a única opção de tomar tudo de uma vez, não pestanejou, nem se preparou demais pra aquilo que sabe ser doloroso. Tomou a solidão para dentro de si. Tentou sentir a barriga cheia, na tentativa de estar farta daquilo e poder se retirar daquele bar. Mas não estava. E a vida continuou mandando doses e mais doses de solidão amarga. Até a mulher estar plenamente bêbada da sua própria vida. Afogou-se em lágrimas. E notou que aquilo esvaziava seu peito bêbado. Aliviada, a vida deixou-a ir. Mas a mulher não se sentia feliz. Sabia que alguma hora iria voltar àquele lugar que chamava de vida. Que iria se embebedar nos copos de solidão. Porque na verdade era mais uma alcoólatra que afastara todas as pessoas da sua vida real. E que para sobreviver só encontrava sentido nos copos de álcool. Então continuaria naquele ciclo de solidão-bebida-lágrimas-alívio-vida… Até o dia em que seu corpo não suportasse mais nenhum outro copo.

sofrimento · tristeza · vida

O paciente

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Hartley – Alice Neel
“Minha vida está uma merda. Sei que tudo é uma tempestade feita em copo d’água. Isso só piora ainda mais o sentimento que guardo sobre mim. Odeio minha fraqueza. Não tenho forças para procurar fazer aquilo que realmente gosto. E naquilo que faço, coloco pouco esforço. Das coisas boas que tenho, sou muito desmerecedor. Nada consegui por trabalho próprio. Em nada vejo meus esmeros. Sinto-me um completo nada. Algo que vive uma vida medíocre e espera o dia do fim”.
Depois desse desabafo, o psicanalista olhou profundamente no rosto transtornado daquele homem. Viu nele mais um paciente. Paciente da vida, não só paciente de consulta médica. Paciente não de paciência, mas de estar passivo. Era mais uma pessoa inteiramente passiva diante da vida. E que não acredita no potencial ativo que tem. Mais um paciente do tempo. Das circunstâncias em que acabou se inserindo. Mais um no universo de pessoas pacientes. Que não mudavam o que era. Que viviam aquilo que não queriam. O seu trabalho era tentar motivar essas pessoas a deixarem de ser pacientes. E eis um longo trabalho, por isso deixou seus devaneios de lado. Pôs-se a trabalhar.