amor · sofrimento · solidão

Obra abandonada

 

jabuh conto
Rafael Albuquerque – “Jabuh”

Encontro-me como uma construção inacabada. Graças ao nosso fim prematuro. O que me tornei é essa estrutura arquitetônica grandiosa de algo que viria a ser. Mas nunca foi. Investi tanto material para nossa construção. Tanto empenho emocional. Tanta dedicação pessoal. Mas você não entrou com a mesma força e crença no empreendimento. Em certo momento, eu parecia o sócio idealista. Você, investidor curioso e sem compromisso. Só você não notava a construção que estávamos criando. Tudo foi só por curiosidade sua, não é? Se foi por isso ou não, agora pouco importa. Acabei abandonado. Aqui, minhas estruturas de concreto seguem estáticas. Sigo acumulando poeira. Do ar que restou daquela época em que estávamos juntos, poeira que aqui se concretizou. E é isso que ainda respiro.

 

depressão · realidade · sofrimento · solidão · tristeza · vida

Sem propósito

eddy
 Eddy Stevens

Bateu um desespero forte no fundo do peito sozinho. Sentiu as lágrimas quentes queimarem a pele suja de dias sem cuidado. Lamentou sua fraqueza. Desfez-se em choro. Incompreendida de si, não tinha razão determinada para aquele sofrer. Chorava por nada que era. Nada que vivia. Apenas a incerteza das manhãs e a certeza noturna de dormir para acordar noutro dia cheio de incertezas. Vazia de propósitos, lentamente vivia. Uma vida que não reconhecia sua. Imersa num dia a dia tão sem rumo. E o pior era não saber para qual rumo correr para ser mais feliz. Talvez fosse essa falta de compreensão sobre si mesma que a fazia desesperar-se todo dia. Era só mais uma humana vivendo sem sentido. Haveria alguma dor maior do que essa de viver sem propósito? Não sabia. E quanto mais afundava no próprio choro, mais profundo era seu sufoco. Talvez seja isso que chamam depressão. Uma pressão mental exercida sobre a própria mente. Comprimindo tudo o que era numa vazio que achava viver. Num nada que achava ser. E todas essas reflexões são versos que escapam pela mente de quem chora sua própria depressão. Lágrimas que escorrem agora. Mundo afora.

sofrimento · solidão · tristeza

Doses amargas da vida

doses
Close up broken hearted woman – Thomas Saliot

Desceu goela abaixo e retumbou no fundo do peito uma dose da mais amarga solidão. Não escolheu essa bebida tão forte naquela hora do dia. Mas a vida é bar onde seus visitantes tomam aquilo que a vida mesmo escolhe para servir. E servida daquele copo, com a única opção de tomar tudo de uma vez, não pestanejou, nem se preparou demais pra aquilo que sabe ser doloroso. Tomou a solidão para dentro de si. Tentou sentir a barriga cheia, na tentativa de estar farta daquilo e poder se retirar daquele bar. Mas não estava. E a vida continuou mandando doses e mais doses de solidão amarga. Até a mulher estar plenamente bêbada da sua própria vida. Afogou-se em lágrimas. E notou que aquilo esvaziava seu peito bêbado. Aliviada, a vida deixou-a ir. Mas a mulher não se sentia feliz. Sabia que alguma hora iria voltar àquele lugar que chamava de vida. Que iria se embebedar nos copos de solidão. Porque na verdade era mais uma alcoólatra que afastara todas as pessoas da sua vida real. E que para sobreviver só encontrava sentido nos copos de álcool. Então continuaria naquele ciclo de solidão-bebida-lágrimas-alívio-vida… Até o dia em que seu corpo não suportasse mais nenhum outro copo.

passado · sofrimento · solidão · velhice · vida

E se?

Sorrowing Old Man (At eternity’s gate) – Vincent van Gogh

 

Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?… E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!… Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: “Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?”.
rotina · solidão · tristeza

Derrota solitária

Androniki – Giorgos Rorris
Esse é aquele momento em que a solidão vem e ataca. Pensou. Repousou as costas doloridas na poltrona. Buscou o sono, sua arma para tentar rebater o ataque, mas se lembrou que, há alguns meses, a insônia também tinha a atingido. Então, insone, teve que se render novamente. Sentir a dor de estar sozinha. Mais um dia a terminar assim. Sabia que esse era o preço que tinha que pagar por ter vivido daquela forma tão egoísta. As pessoas que pareciam na sua juventude tão substituíveis, tão descartáveis, agora pareciam tão fundamentais no auge dos seus cinquenta. Porém, ninguém permaneceu ao seu lado. E ela merecia aquela solidão. Por isso, não lutava mais. Deitaria e deixaria escorrer as lágrimas no rosto – sangues de mais uma derrota – até adormecer por umas poucas horas. Até acordar e viver mais um dia.