defeitos · morte · saúde · sofrimento · tristeza · vida

Colecionadora de perdas

colecionadora
The Physician (detail) –  Christina Ridgeway

Você não tem coração. Foi o grito quase cuspido na sua cara. Ela não se importaria com isso se fosse qualquer outro dia. Mas aquele era o começo de um plantão e já teve três pacientes falecidos. E ali na sua frente, uma mãe chorando em prantos, a culpava pela morte do filho. Ela era médica de urgência há tantos anos. No início, uma morte era uma pedra bastante pesada para carregar. Mas com o tempo foi diminuindo o tamanho dessas pedras, para que ficasse mais cômodo carregá-las. Deixou seu emocional de lado e adotou seu lado mais racional. Assim, com o tempo, era uma médica que colecionava pedrinhas. Muitas vidas foram salvas. Mas isso não a fazia abandonar aquelas pedrinhas. Até ouvir aquelas palavras. Uma pontada de emoção veio com força ali onde a mulher dizia faltar um coração. E a médica fugiu para seu consultório. Deixou suas pedrinhas se transformarem em lágrimas e, como nunca antes, desabou em choro. Mas foi aí que ela pegou o estetoscópio sempre pendurado no pescoço, colocou nos ouvidos e pôs no próprio peito para ouvir seu coração. Esse simples gesto a fez retomar a racionalidade de antes: afinal, havia um coração ali. Engoliu o choro. Limpou as lágrimas. E foi colecionar outras pedras. Colecionar mais perdas.

sofrimento · solidão · tristeza

Doses amargas da vida

doses
Close up broken hearted woman – Thomas Saliot

Desceu goela abaixo e retumbou no fundo do peito uma dose da mais amarga solidão. Não escolheu essa bebida tão forte naquela hora do dia. Mas a vida é bar onde seus visitantes tomam aquilo que a vida mesmo escolhe para servir. E servida daquele copo, com a única opção de tomar tudo de uma vez, não pestanejou, nem se preparou demais pra aquilo que sabe ser doloroso. Tomou a solidão para dentro de si. Tentou sentir a barriga cheia, na tentativa de estar farta daquilo e poder se retirar daquele bar. Mas não estava. E a vida continuou mandando doses e mais doses de solidão amarga. Até a mulher estar plenamente bêbada da sua própria vida. Afogou-se em lágrimas. E notou que aquilo esvaziava seu peito bêbado. Aliviada, a vida deixou-a ir. Mas a mulher não se sentia feliz. Sabia que alguma hora iria voltar àquele lugar que chamava de vida. Que iria se embebedar nos copos de solidão. Porque na verdade era mais uma alcoólatra que afastara todas as pessoas da sua vida real. E que para sobreviver só encontrava sentido nos copos de álcool. Então continuaria naquele ciclo de solidão-bebida-lágrimas-alívio-vida… Até o dia em que seu corpo não suportasse mais nenhum outro copo.

sofrimento · tristeza · vida

O paciente

8b8c0-hartley
Hartley – Alice Neel
“Minha vida está uma merda. Sei que tudo é uma tempestade feita em copo d’água. Isso só piora ainda mais o sentimento que guardo sobre mim. Odeio minha fraqueza. Não tenho forças para procurar fazer aquilo que realmente gosto. E naquilo que faço, coloco pouco esforço. Das coisas boas que tenho, sou muito desmerecedor. Nada consegui por trabalho próprio. Em nada vejo meus esmeros. Sinto-me um completo nada. Algo que vive uma vida medíocre e espera o dia do fim”.
Depois desse desabafo, o psicanalista olhou profundamente no rosto transtornado daquele homem. Viu nele mais um paciente. Paciente da vida, não só paciente de consulta médica. Paciente não de paciência, mas de estar passivo. Era mais uma pessoa inteiramente passiva diante da vida. E que não acredita no potencial ativo que tem. Mais um paciente do tempo. Das circunstâncias em que acabou se inserindo. Mais um no universo de pessoas pacientes. Que não mudavam o que era. Que viviam aquilo que não queriam. O seu trabalho era tentar motivar essas pessoas a deixarem de ser pacientes. E eis um longo trabalho, por isso deixou seus devaneios de lado. Pôs-se a trabalhar.
amor · liberdade · sofrimento · tristeza

Distante liberdade

TM2 – Lou Ros

 

Mais um dia riscado no calendário. Agora faltavam quarenta dias para ele sair daquela solitária. Estava preso, sem ter cometido nenhum crime. A pena que pagava era por amor. A prisão em que se encontrava era sentimento que vivia por estar longe dela. A distância, para ele, causava tal sentimento de prisioneiro, pois ela era sua liberdade. Não importa quantas pessoas estivessem ao seu redor ou o quão livre no mundo ele estivesse. Sem ela, se sentia sozinho demais para viver. Incompleto demais para seguir em frente. Por isso, preso dentro de si. Era uma solitária em forma de homem. Então, contava os dias para ela voltar. Em quarenta dias, voltariam seus abraços, beijos e corpo. Sua liberdade em forma de mulher. A sua redenção.
sofrimento · tristeza · vida

Carcereiro de si

Igor Morski
Uma lágrima correu solitária. Mas fraca, secou na metade do seu caminho. É que o terreno que percorria era árido demais. Há tempos que não era irrigado. Aquela lágrima foi a única que conseguiu escapar e tentar socorro. Viviam lágrimas presas dentro daquele homem. Ali dentro, havia sempre um pranto farto. Mas por fora, ninguém percebia. Sem ajuda, as lágrimas sufocavam ali dentro. E se multiplicavam, aumentando mais o sufoco. Então, aquela corajosa lágrima foi a única que conseguira suplicar ajuda externa. Porém, falecida lágrima, não teve força persuasiva. Ninguém notou o lamento interno do homem. Ninguém notou o pranto por trás da máscara árida de fortaleza. Ninguém libertou as tantas lágrimas presas em cárcere. O homem continuou sufocando. Continuou sufocado.
passado · sofrimento · solidão · velhice · vida

E se?

Sorrowing Old Man (At eternity’s gate) – Vincent van Gogh

 

Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?… E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!… Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: “Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?”.
sofrimento · tristeza

De portas fechadas

Alejandro Boim
Feche a porta. Era o que a placa pendurada na porta sussurrava para quem passava. Era uma medida encontrada por ele para deixar ali guardadas todas as melancolias que ele vivia. Não queria compartilhar suas mágoas. Ele gostava de ser o único a sofrer por ali. Pois sofrer tem lá suas vantagens. Desde que, ainda muito pequeno, foi diagnosticado com depressão, nunca mais recebera sermões raivosos do pai, nem obrigações domésticas da mãe, tampouco podia ser maltratado pelos irmãos. A depressão era o que assegurava toda a atenção, o carinho e os privilégios que achava merecer. Por isso, cultivou uma série de melancolias ali no seu quarto. E fechava a porta para qualquer motivo que afastasse suas mágoas.