amor · sofrimento · solidão

Obra abandonada

 

jabuh conto
Rafael Albuquerque – “Jabuh”

Encontro-me como uma construção inacabada. Graças ao nosso fim prematuro. O que me tornei é essa estrutura arquitetônica grandiosa de algo que viria a ser. Mas nunca foi. Investi tanto material para nossa construção. Tanto empenho emocional. Tanta dedicação pessoal. Mas você não entrou com a mesma força e crença no empreendimento. Em certo momento, eu parecia o sócio idealista. Você, investidor curioso e sem compromisso. Só você não notava a construção que estávamos criando. Tudo foi só por curiosidade sua, não é? Se foi por isso ou não, agora pouco importa. Acabei abandonado. Aqui, minhas estruturas de concreto seguem estáticas. Sigo acumulando poeira. Do ar que restou daquela época em que estávamos juntos, poeira que aqui se concretizou. E é isso que ainda respiro.

 

amor · casamento · feminismo · força · paixão · sofrimento

Por força, da força

magritte
René Magritte

Ela se apaixonou pela força dele. Entregou-se sem saber que o relacionamento a levaria a força para anos de uma vida nunca desejada. Ao longo desses anos, descobriu que a força dele era tamanha também nas imposições de como ela devia se comportar. No tom de voz aumentado quando algum desentendimento surgia. No jeito de olhar a repreendendo em público. E entre quatro paredes,na força do sexo em horas indesejadas. Mas, aos poucos, ela ia percebendo que essa força revelava uma fraqueza descomunal existente naquele homem. Foi se descobrindo mais forte que ele, dia após dia. Sentia-se mais forte que ele quando separava sua vida pessoal da profissional e, apesar dos problemas, conquistava cada vez mais espaço mundo afora. E os méritos alcançados lá fora não a impedia de manter tudo organizado dentro de casa. Tornou-se mais forte que ele, quando começou a questionar as imposições e comportamentos daquele homem fraco. E tomou toda a força que restava nele para si, quando acabou com o relacionamento e se libertou, sem medo, para continuar a viver do seu próprio jeito forte de ser.

aprendizado · depressão · sofrimento · tristeza · vida

Baseado em dores reais

nataliefoss
Natalie Foss

Chora-se, mas é preciso descongestionar as narinas para respirar, pois a vida segue e respirar pela boca é incômodo. Como é perceptível: o corpo ensina. É preciso aprender com a força e o fluxo de vida que pulsa, independente dos dramas, frustrações, sonhos impossíveis que cultivamos na mente. Há sempre um impulso de realidade vibrando nossa existência no sentido de superar cada choro, cada dor. Toda lágrima seca. Todo choro cansa. A vida continua. E constatar isso, após tanto lamento e confusão mental, é tão prazeroso quanto o respirar livre e calmo após o choro recém vivido. Experimente só a calma pós-pranto… Haverá de confirmar! E uma ficha – dessas que demoram a cair, mas sempre caem em algum instante – é que: baseado em dores reais, isso é viver.

depressão · realidade · sofrimento · solidão · tristeza · vida

Sem propósito

eddy
 Eddy Stevens

Bateu um desespero forte no fundo do peito sozinho. Sentiu as lágrimas quentes queimarem a pele suja de dias sem cuidado. Lamentou sua fraqueza. Desfez-se em choro. Incompreendida de si, não tinha razão determinada para aquele sofrer. Chorava por nada que era. Nada que vivia. Apenas a incerteza das manhãs e a certeza noturna de dormir para acordar noutro dia cheio de incertezas. Vazia de propósitos, lentamente vivia. Uma vida que não reconhecia sua. Imersa num dia a dia tão sem rumo. E o pior era não saber para qual rumo correr para ser mais feliz. Talvez fosse essa falta de compreensão sobre si mesma que a fazia desesperar-se todo dia. Era só mais uma humana vivendo sem sentido. Haveria alguma dor maior do que essa de viver sem propósito? Não sabia. E quanto mais afundava no próprio choro, mais profundo era seu sufoco. Talvez seja isso que chamam depressão. Uma pressão mental exercida sobre a própria mente. Comprimindo tudo o que era numa vazio que achava viver. Num nada que achava ser. E todas essas reflexões são versos que escapam pela mente de quem chora sua própria depressão. Lágrimas que escorrem agora. Mundo afora.

casamento · força · medo · sofrimento · violência

Reflexos de uma dor

rscott
Victoria – Richard Scott

O punho ainda estava dolorido. Mas aquela dor não era nada perto do forte aperto que carregava no peito. Passou o dia inteiro sem coragem de se encarar nos espelhos da casa. O reflexo de mulher forte, que ela vestia todos os dias, certamente naquela manhã devia ter amanhecido menos convincente. Não sabia se os outros que encontraria ao longo do dia notariam isso. Mas ela sentia isso e sabia que sentir era mais triste do que transparecer. Nunca pensou que o homem que chamava de amor um dia a deixaria com aquele aperto no peito. Com aquela dor no punho. Com aquele sentimento de que já não é mulher forte o bastante para viver. O que vivera noite passada foi claramente violência doméstica. Mas nunca imaginou que seria ela mais uma mulher nas estatísticas… Ou melhor, não seria. Porque não tinha força pra falar, denunciar, expor aquilo que viveu. E isso só a machucava mais. Só afastava mais a lembrança de que, até ontem, era uma mulher forte, bem resolvida, com controle sobre si. Mas algo ali dentro ainda insistia em lembrar dessa mulher que foi. E, meio ao vazio existencial pós violência, conseguia esperançar sobre um dia enfrentar aquele suposto amor, encarar a realidade e olhar seu reflexo com coragem de novo. Quem sabe, um dia. 

defeitos · depressão · rotina · sociedade · sofrimento

Condenação

scott
Before the after – Scott Hutchison

Era mais uma condenada a viver surtos de infelicidade. Isso porque não fazia o que amava. Não sabia nem o que seria isso que a faria amar sua rotina. Mas aceitou um caminho que parecia muito conveniente para os outros, porém tão desestimulante para ela. Na falta do que a estimular, construiu sua rotina sobre essas bases convencionais. E por isso era mais uma dessas pessoas condenadas a lamentar o dia a dia, a lastimar o amanhecer de cada nova semana, a reclamar das horas que não passam até o final do expediente e a sentir-se aliviada por chegar viva em casa no final do dia, porém, tão suficientemente amarga, que contagiaria com tal gosto a vida dos que a rodeava. E enquanto ela não movesse seus intentos na busca do que seria sua razão de viver, pagaria essa pena. Uma pena que não era exclusividade dela. Pelo contrário, ela era só mais uma naquele presídio de condenados à infelicidade profissional

amor · medo · sofrimento · tristeza

Medos omitidos

medo
Kris Knight

“Eu estava chorando, meu amor. É que estou com medo de te perder. Eu me sinto insuficiente para ti nos últimos anos. Como se você tivesse evoluído tanto e eu, sem querer, tivesse ficado parada, sem me mover, em algum estágio muito anterior a sua evolução. E não quero te impedir de evoluir, tampouco quero deixar você ir sem mim. Eu não me reconheço sem você. Por isso choro quase todos os dias…”
Ela sentiu o nó na garganta. Pestanejou e afastou todos aqueles pensamentos. Apenas respondeu seu namorado com uma frase rápida “acabei de acordar, por isso meus olhos estão inchados” e um riso forçado. Não era a primeira vez que ele perguntava porque aquele inchaço no olhar da mulher. E ela sempre tinha que engolir aqueles pensamentos, aquelas verdades, afinal, não queria nunca ter que assumir seus medos. Não queria correr o risco de ser frágil e perder sua única fortaleza: o seu amor. Sem saber, no entanto, que a cada dia que escondia esses medos era mais um passo atrás da evolução que ela tanto queria fazer também.