amor · sociedade

Como água

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Ilustração de Paulo D. Campos

Você era como uma hidrelétrica. Imponência misteriosa. Parecia carregar dentro de si uma profundidade repleta de águas vividas. Para quem é acostumado a conhecer córregos e observar rios passageiros, você foi alguém inalcançável e impenetrável. Mas criei coragem. Muita coragem. Fui até você, troquei as primeiras palavras e mantive firme o olhar de quem quer em ti mergulhar. E você abriu as comportas do seu ser. Deixou-se fluir como outro rio qualquer, que no início parece volumoso, mas tem momentos de inconstância e, no final, deságua no mesmo oceano de seres humanos. Todos similares entre si. Em substância. Como água.

cotidiano · ego · pobreza · realidade · sociedade

Vitrines de desejos

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Paul Klee

Meu sonho é ter dinheiro para comprar essa bolsa, mas a vida está tão difícil! – uma moça argumentou com a amiga, paradas em frente a uma vitrine de bolsas e roupas caras. Logo ali perto, um mendigo sentado no chão, próximo a uma lanchonete, encarava a vitrine de salgados sendo reposta pelo funcionário. No papelão ao seus pés, a súplica escrita – me ajudem, estou com fome, a vida está tão difícil. Desviando do mendigo, passou o jovem com os olhos vidrados no celular. Observava o aplicativo de celular como uma vitrine de meninas próximas dele, mas nenhum “match” alcançado. Talvez ele também pensasse que “a vida está tão difícil”.
Cada pessoa tem a sua vitrine dos desejos. Vitrines que doem no ego e outras que doem no estômago mesmo. Dores específicas de cada um com sua vida tão difícil.

beleza · realidade · sociedade

Lamento feminino

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Ilustração de Henn Kim

Colocou a digital na máquina e registrou final do expediente. Saiu segurando o choro. De ódio. Alcançou o ônibus que levaria até sua casa. Lá sabia que iria desabar. Ela acabara de receber uma reclamação do seu chefe. “Você deveria se arrumar melhor, usar uma maquiagem mais marcante”. Na sua frente, uma avaliação de que ela não tem tido bom desempenho. Mas ela sabia que o desempenho dela não tinha nada a ver com sua aparência. Ela era a melhor funcionária do setor. A empresa era que estava sendo passada para trás pela concorrência, que tinha visão mais moderna sobre o mercado. Porém, passar a culpa para a falta de um batom, um salto agulha ou decote, talvez, era muito mais fácil. Só mais uma atitude que marcava a mesmice tradicionalista e ultrapassada daquela empresa. Estava repleta de ódio por isso! Todos os seus méritos profissionais, alcançados com muita dedicação ao longo dos anos, não serviria para aquele chefe? Sentiu-se menosprezada! E se fosse um homem, teria que se maquiar? Não conseguiu segurar o choro de ódio até chegar em casa. No ônibus, ela sabia que estava sendo observada. Certamente iriam sussurrar ou imaginar que era mais uma mulher sensível sofrendo em público… Lamentos de ser mulher numa sociedade hipócrita.

história · sociedade

Criador

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André Pessoa

Pela primeira vez, sentiu o peso da responsabilidade pelo o que escrevia. As crianças choravam assustadas. O assombro também passava pelos olhos dos adultos, dos mais fortes aos mais fracos. A comunidade o encarava perplexa. Seus relatos escritos em linguagem desenhada apontavam pra existência de um “espírito guardião” da região que acabam de invadir. Por isso aquelas tempestades intermináveis. Ou todos confiavam nele, escritor, ou não haveria como negociar permanência pacífica. Ele escreveu aquela história da sua própria imaginação. Não contava com a crença dos que viviam com ele. Acabou eleito líder espiritual, porque era o único que dominava tão bem a arte de escrita e narração. Na verdade, sua maior capacidade era a da criação. Capaz de negociar o fim das tempestades, ele não era. Compreendeu que escrever e falar o que não existe é dar vida através de palavras. E vida é algo mais poderoso do que imaginava. Principalmente quando se é dada a algo que não morre. Por isso, o peso da responsabilidade que criou para si. Mas junto com maiores responsabilidades, sempre vem muito poder. E logo esse arcaico escritor perceberia o tamanho desse poder criado e encararia sua nova função com gosto. Tal gosto que seria passado por gerações e mais gerações de líderes. Criativos seres poderosos.

preconceito · realidade · sociedade

Subversão

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Matheus Ribs

Desde muito novo, observava o caos vivido naquela sua comunidade. Percebia o confronto diário do seus semelhantes com aquela realidade opressora. Notava a grande diferença entre os seus mais próximos e aqueles poderosos: a cor. Viu mãe sofrer abuso de gente de cor diferente. Viu pai ser demitido por gente de cor diferente. Viu amigos se revoltarem contra aquele sistema. Viu muitos se subverterem com armas às mãos. E viu muitos desses perderem a vida. Diante de tanta coisa vista, ele percebeu que, apesar de toda revolta, o sistema permanecia o mesmo: esmagava sua gente e excluía sua cor. Então, ele também se subverteu. Mas escolheu outras armas: livros, conhecimento, saber. Essas eram as grandes armas que as pessoas de cor diferente usavam para manter o sistema. Nada mais lógico do que reverter tamanha opressão através da sua própria educação.
Mas como toda arma poderosa, o ensino nunca lhe foi ofertado com qualidade nem facilidade. Porém, sabia que toda subversão exigia força e luta. Lutou. Por anos, o estudo foi sua maior tática de guerrilha. Sabia, ali dentro de si, que poderia ser líder de uma revolução. De fato, revolucionou, após alcançar um cargo com poder de decisão. Diariamente, a cada sentença ditada sem julgar pela cor, uma pequena revolução se fazia com sua assinatura. E cada rubrica fazia em memória das vidas de cor que foram perdidas e por aquelas que ainda viviam naquele caos. Um caos que estava longe de ser resolvido, mas contra o qual nunca deixaria de lutar.

beleza · defeitos · sociedade

Indignadas

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Voltage – Dorothea Tanning

“Vim para resgatar minha dignidade”. Ouvia aquilo de quase todas as mulheres que atendia no salão de beleza. Ela, com todo profissionalismo que possuía, sorria em retorno àquele comentário e desenvolvia a sua arte de manicura e pedicure com desenvoltura. Porém, esse tipo de comentário nunca a deixava em paz. Uma inquietude se instalava ali dentro de sua cabeça e a fazia se questionar sobre aquela tal “dignidade” que as mulheres diziam ter ou não com base em unhas feitas e pintadas, ou cabelos tingidos e escovados, ou sobrancelhas desenhadas e por aí vai. Que tipo de dignidade era essa que só se resgatava em salão de beleza? Que tipo de mulheres “dignas” insistíamos em ser e incentivar com base nesses critérios superficiais? Aquilo a deixava indignada! E ao mesmo tempo que notava tal indignação, sorria de si mesma… Olhava suas unhas sem esmaltes, seu cabelo natural e concluía: tem razão eu estar “indignada” mesmo! E isso não a incomodava, preferia a falta dessa dignidade superficial. No fundo havia uma semelhança entre ela e aquele grupo de mulheres: todas encontravam dignidade num salão de beleza. Ela, por meio de seu trabalho que amava fazer. Elas, por meio do resultado do trabalho daquela. E, assim, cada uma seguia com a dignidade que achavam merecer.

realidade · religião · sociedade

Proteção

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Sebastião Salgado

Acordou naquela madrugada gelada e pediu em pensamento “Senhor, me protege!”. Não sabia ao certo pra quem dirigia esse pedido, quem era aquele “senhor”, de quem era aquele Deus, se poderia ser o seu Deus também. Não sabia. Ocorre que no dia anterior, vagando por aí, fazendo o que era de costume seu – “pedir uma ajudinha” – acabou passando em frente a uma igreja. Lá de dentro saia o discurso de um homem falando que todos deveriam pedir “Senhor, nos proteja, com força, com fé. Pois no mundo de hoje, em que as ameaças estão a cada esquina e o Estado não nos assegura, só com proteção de Deus…”. Ele ficou ali próximo à igreja e continuou pedindo por ajuda, “uma moedinha”, mas notou que as pessoas de fé que saiam dali, desviavam dele ou fingiam não o ver ou o ouvir. Assim como quase todas as outras pessoas. E por um instante ele notou que talvez ele fosse uma daquelas “ameaças” que ficam a cada esquina e que o Deus daquelas pessoas estariam o afastando delas, para as proteger. Pensar naquilo o abalou profundamente. “Como conseguirei ajuda dessas pessoas, se tem um Deus protegendo elas de mim?”. E pelo resto do dia, ele desistiu. Dormiu com as poucas cobertas que tinha. Com o oco rotineiro na barriga. E acordou naquela madrugada fria, com a sensação de que sua sede por fome agora era bem menor do que a sede por proteção divina.