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O vazio no olhar

Lady Beatrice – George Clausen
Ela tinha o vazio nos olhos. Ninguém conseguia olhar para ela sem perder, nem que seja por um instante, o ar. Algumas pessoas simplesmente não conseguiam trocar palavras com ela. Outros gaguejavam. E a técnica mais usada por aqueles que com ela mais interagia era: evitar encarar o olhar daquela moça. Mas a moça não notava esse poder que possuía, de causar tamanha surpresa nas pessoas. De tirar o ar dos outros. Ela não sabia que carregava o vazio no olhar. Pois nunca teve a chance de encarar seus próprios olhos. Nascera cega. Com olhos num cinza opaco. E vivia com a impressão de que os seres humanos são, por natureza, silenciosos. Porém, o que ela nunca saberia era que, por natureza, o vazio é algo difícil de encarar.
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Uma consulta

Queen of diamonds – Jack Vettriano
 
Talvez exista certo narcisismo em mim. Mas, convenhamos, Doutor, olhe para mim. Olhe, Doutor! Isso… Olhe… Tem como não desejar perder horas do dia contemplando minha imagem? Não tem, Doutor. Até Freud abandonaria a psicanálise para passar o resto da vida olhando para mim. Isso mesmo, Doutor, deixe esse riso fluir. Eu vi, sim, um riso aí no cantinho da sua boca… Deixe, deixe fluir! O que me traz aqui? Ah, Doutor, venho sugerir que os senhores psicanalistas estudem a mente de um bocado de homens dessa nossa sociedade. Acredito que eles devam ter sérios transtornos mentais. Pois, olhe para mim, Doutor. Isso mesmo, pode voltar a olhar… Por que será que, afinal, esses homens não reconhecem a maravilha que é me admirar? Por que, hein? Só pode ser transtorno mental, Doutor! E dos sérios!
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Merecido presente

World – Jennifer Balkan
Aos quinze anos, não quis festa de debutante. Pediu aos pais o mundo como presente. Mas os pais não tinham condição. Não querendo desagradar a pequena jovem, juntaram algumas economias e compraram um globo terrestre. Enrolado em um laço de papel, o globo foi aninhado nos braços finos da aniversariante. Ela refletiu sobre aquele presente e não se decepcionou com os pais. A realidade, por ela, era bem conhecida. Agradeceu. E aquela sua gratidão era a prova do merecimento que um dia a faria ganhar o mundo. De verdade.
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Gostos ocultos

Three Graces – David M. Bowers
Primeiro dia de aula. Perguntaram a ela o que gostava de fazer. Respondeu. Foi suspensa. Primeira noite de encontro. O moço perguntou a ela o que ela gostava de fazer. Respondeu. Foi abandonada. Primeira entrevista de emprego. O chefe perguntou a ela o que ela gostava de fazer. Respondeu. Foi dispensada. Completamente isolada, a mãe perguntou a ela o que ela tinha de errado. Respondeu que era sincera. A verdade não era aceita. Mas então, a mãe perguntou que verdade era aquela. Respondeu. Assombrou-se. Mas não podia deserdar a filha. Ao invés disso, ensinou-a a mentir. Depois disso, ela voltou aos encontros. Conseguiu um emprego. Viveu aparentemente normal… Exceto por aqueles seus gostos que persistiam. Ocultos. Perversos.
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Primeiro encontro

 

Natalia – Fabian Perez
Então, conte-me mais sobre você – perguntou com uma voz suave, tentando seduzi-la. Ela não pareceu seduzida; pôs-se a falar: Bem, eu não sou uma pessoa de muitas certezas e se eu começasse a afirmar uma porção de fatos sobre mim, estaria mentindo para você. Sou uma pessoa de incertezas. Não tenho nada favorito, nada predileto. Ainda não sei se acredito na ideia de céu e inferno, anjos e deuses, ou se passo a me preocupar com essa vida, sem a expectativa de outra depois da morte. Não confio em cachorros, mas acho que os humanos acabam sendo mais perigosos. Não acredito no governo, mas temo que uma vida sociável sem um seja impossível. Tenho medo do mar, ainda que um dia eu queira morar em frente à praia.
Ele, meio surpreso com aquele jato de informações cuspido na mesa do restaurante, soltou um: Nossa, como você é interessante! Em resposta, meio desiludida ou mesmo sem certeza sobre o que sentir por aquele cara, ela disse: Não tenha tanta certeza assim.
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Domingo

 

Window with view on the island Bréhat – Marc Chagall
Um incenso queimando. Na caneca verde, um chá de maça e canela esfriando. A solidão, deitada na cama, chamava para dormir. Lá fora, os pássaros riam. Lá dentro, as faltas e os excessos se batiam. Despencava dos olhos o peso daquele domingo, formando ali um inchaço escurecido. Nem som, nem companhia, nem nada. Apenas a espera pela segunda.
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Fundo do poço

Richard Serra

Os diamantes não tinham valor no fundo daquele poço. No fundo, era tudo escuro. Tudo silenciado pela mesmíssima cor de breu. Cá, na humanidade, aquilo era também verdade. Não importava a superfície dos colos femininos ornamentados por pedrinhas brilhosas… No fundo daqueles peitos, tudo era a mesma cor de breu… Que pulsa, pulsa e pulsa. Sangue escarlate como água que pulsa no fundo dos poços do mundo. Que pinga, pinga e pinga feito diamante que deixava cair naquela beira.