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Pausa na vida

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Mysterious Connection-1 – Tarak Mahadi

De repente, todos os seus dramas diários se esvaíram. Uma completa apatia preencheu seu tanque de combustível mental. Parou na vida. Não conseguiu distinguir exatamente o que levou àquela pausa tão desnorteadora. Apenas não via qualquer sentido em se esforçar tanto naquela rotina em que estava inserido. Não sentia ânimo para continuar a melodramatizar os desafios do cotidiano. Mesmo tantos prazos correndo próximos do fim, mesmo tantas pessoas ao redor motivando-o a seguir e mais: a conseguir cada vez mais! Mesmo com tanta coisa por ocorrer, simplesmente parou. E aquele dia pareceu tão sem sentido e ao mesmo tempo tão libertador! Respirou sem pensar em nada e apenas desejou não desejar nada. Mas acabou desejando no final mais dias como aquele. Por mais pausas apáticas. Por mais tempo em que o tempo escapando pelos dedos pouco importasse. Apenas queria uma dose diária disso tudo no meio dos seus tantos dramas da vida. Talvez seria essa apatia um combustível menos prejudicial ao seu meio ambiente mental. Talvez… Ou não… Pouco se importava com isso, afinal. Pelo menos, não naquele breve momento de pausa da vida.

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Chave das recordações

chave
An Invitation to the Intimate – Paul Bond

Um dia, organizando a imensidão de coisas que havia na sua casa, acabou encontrando uma velha chave. A porta que essa chave abria pertencia a um lugar distante, onde ela teve a sorte de um dia viver. Deixou esse lugar para trás, afinal não pertencia a ele. Levou a chave sem querer. Mas nesse dia, anos depois, após encontrar essa chave, a porta que abriu foi a da nostalgia. Uma porta que não costumava abrir. Mas que, naquela tarde de domingo, resolveu deixar escancarada para que todas as lembranças pudessem fazê-la companhia. Agradeceu por poder ter recordações como aquelas. E compreendeu, por fim, que as pessoas podem não pertencer a lugares ou a outras pessoas, mas uma coisa pertence a elas: suas próprias histórias. E que sorte a dela sentir-se tão bem acompanhada com a sua história! Sentir-se plena consigo mesma! E foi essa plenitude que viveu naquela tarde de domingo.

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A espera de união

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Life in the city – Charles Nkomo

Naquela data festiva, a ordem era se agregar às pessoas queridas e comemorar o nascimento de um ser iluminado que veio diante da humanidade pregar o sentimento que representa pura união. Naquela data, porém, havia tantas pessoas que não podiam estar unidas, por circunstâncias da vida, por escolhas próprias ou situações não queridas. Muitos amores separados, sem querer. Muitas famílias espalhadas pelo mundo, pro bem ou pro mal. Muitas fronteiras geográficas a dividir amigos. E mesmo algumas fronteiras geopolíticas a impedir que famílias unidas pudessem comemorar, apenas a suplicar. Naquela data, às vezes o que mais se espera é o que menos se pode ter. União, amor, um abraço tranquilo, um prato cheio. Porém o mais incrível dessa data é que, mesmo não sendo tão festiva assim, faz algumas dessas muitas pessoas sentirem uma ponta de esperança. Esse sentimento que aquece e faz companhia. Que move essas pessoas para os próximos dias com a crença de que poderão comemorar as próximas datas festivas com verdadeira união.

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Pelos caminhos da vida

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Sem título – Marina Andrade Alves

Quem a visse percorrer aquele caminho reto, não imaginaria os percalços que ela já havia passado. Sua vida era tão cheia de altos e baixos que se sentia sempre lançada do alto de uma montanha conquistada à depressão de quem perde tudo. Percorreu muitas curvas sinuosas, mantendo a velocidade precisa para não sair da estrada da vida e ir parar no acostamento dos que ficam no meio do caminho – mortos, estagnados ou vencidos pelas dificuldades. Lutava para manter o foco naquela caminhada, mas já teve que suportar dar muitos passos em frente com a visão embaçada pelas lágrimas. Chorou muito, mas também sorriu. As alegrias que surgiam no tortuoso caminho da sua vida era o combustível que a fazia acreditar que valia a pena continuar a caminhar. E foi crendo nisso que ali estava ela percorrendo seu primeiro caminho reto, sem nenhuma dificuldade. É que aquele era o caminho dos que já não estavam mais vivos, mas que em vida passaram por muitos percalços sem fraquejar. Era ali a sua alma dessa vez seguindo por um caminho limpo, iluminado, reto e tranquilo. Rumo à tranquilidade que, em vida, nunca havia experimentado. Mas que agora iria desfrutar.

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Memória de elefante

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Sem título – Rodrigo Gomes Maciel

Era difícil. E a dificuldade não era esquecida. Constantemente, recordava cada uma das dificuldades cotidianas que vivia. Não sabia se iria dormir aquela noite sem sangrar. Não sabia se iria conseguir fechar os olhos sem se incomodar com os flashes ainda reluzindo e cegando o pouco da sua visão. Não sabia se iria se alimentar mais ou menos do que ontem. Era difícil viver assim. Recordar de cada mínimo detalhe do seu cotidiano escravo. Lembrar de cada uma das feições dos malfeitores que o criava. Saber que estava longe do fim, pois seu corpo foi feito para suportar grandes desafios e sobreviver por muito tempo. E sobreviveria, dia após dia. Com a dificuldade de ser elefante em um circo de humanos risonhos. Com a memória de elefante gravando cada um daqueles humanos medonhos.

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Papo depois de um vinho

Familiar Notes – Milt Kobayashi

Hoje eu te amo menos. Não significa que eu não te queira mais. Não significa que eu esteja amando mais outro alguém. Não significa que eu ainda não te ame. Te amo. Só que menos que ontem. Talvez mais ou talvez menos que amanhã. E deixo logo claro isso: sou assim mesmo, volúvel. Mas calma, não se preocupe, que nunca chego a volumes negativos daquilo sinto. Ou seja, meu amor por você não vai acabar. Apenas irá variar, como um rio intermitente. Ora pode ser corrente forte de água… Ora pode ser poças de água entre as pedras. Mas nunca esse rio muda de lugar. Faça seca ou ocorra dilúvios, é sobre esse leito que esse rio há de correr. E és tu essa terra estável. Estabilidade essa que faz eu me apaixonar por ti… Pensando bem, te amo mais agora! Vem aqui, vamos acabar com esse papo…

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Tanta saudade

Happiness – Clare Elsaesser
A saudade não a apertava mais. De tão grande que era, a saudade daquela moça já escapava para apertar seu arredor. As pessoas não se sentiam mais tão bem ao lado dela, pois a saudade que ela transmitia causava a sensação de aperto nos outros. E por onde ela passava, a saudade ia envolvendo as pessoas, os lugares, os ares… Até o dia que sua saudade ficou tão grande que apertou o mundo. E nesse aperto mundial, ela sentiu que havia tocado nele. Ele, razão daquela saudade, que estava a uma distância tão grande. Distantes por um tempo tão longo. E, então, pela primeira vez, meio a tanto tempo e tanta distância, a moça agradeceu por ter aquela saudade. Saudades dele. Saudades que a mantinha perto dele.