amor · passado · realidade · romance · rotina

Sem vida

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Marina Esmeraldo

Acordou ao lado de mais uma estranha. A luz do celular despertou uma dor de cabeça que provavelmente o acompanharia pelo resto do dia. Saiu daquela cama desconfortável. Pensou no trabalho atrasado. Saiu com a boca impregnada pelo álcool da noite passada. Invadiu o trânsito da cidade que já fervia. Retornou àquele ambiente que chamaria de casa, se não fossem todas as lembranças que ainda transmitia. Memórias de uma vida que achava perfeita demais para ter sido vivida por ele. Mas que se findou e o deixou órfão no mundo. Deixou-o ser mais um homem a repetir suas tarefas dia após dia. Mais um humano que fugia das lembranças. Que corria para os braços de experiências desconhecidas. Só para preencher o vazio que ficara. O vazio que pesava sua existência no presente. De um passado que tinha nome de mulher. Uma mulher que não sabia onde estava mais. Que vive em outra conexão. Ou que nem vive mais. Como ele, que apenas segue sem vida.

cotidiano · liberdade · rotina · Sem categoria · vida

Pausa na vida

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Mysterious Connection-1 – Tarak Mahadi

De repente, todos os seus dramas diários se esvaíram. Uma completa apatia preencheu seu tanque de combustível mental. Parou na vida. Não conseguiu distinguir exatamente o que levou àquela pausa tão desnorteadora. Apenas não via qualquer sentido em se esforçar tanto naquela rotina em que estava inserido. Não sentia ânimo para continuar a melodramatizar os desafios do cotidiano. Mesmo tantos prazos correndo próximos do fim, mesmo tantas pessoas ao redor motivando-o a seguir e mais: a conseguir cada vez mais! Mesmo com tanta coisa por ocorrer, simplesmente parou. E aquele dia pareceu tão sem sentido e ao mesmo tempo tão libertador! Respirou sem pensar em nada e apenas desejou não desejar nada. Mas acabou desejando no final mais dias como aquele. Por mais pausas apáticas. Por mais tempo em que o tempo escapando pelos dedos pouco importasse. Apenas queria uma dose diária disso tudo no meio dos seus tantos dramas da vida. Talvez seria essa apatia um combustível menos prejudicial ao seu meio ambiente mental. Talvez… Ou não… Pouco se importava com isso, afinal. Pelo menos, não naquele breve momento de pausa da vida.

defeitos · depressão · rotina · sociedade · sofrimento

Condenação

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Before the after – Scott Hutchison

Era mais uma condenada a viver surtos de infelicidade. Isso porque não fazia o que amava. Não sabia nem o que seria isso que a faria amar sua rotina. Mas aceitou um caminho que parecia muito conveniente para os outros, porém tão desestimulante para ela. Na falta do que a estimular, construiu sua rotina sobre essas bases convencionais. E por isso era mais uma dessas pessoas condenadas a lamentar o dia a dia, a lastimar o amanhecer de cada nova semana, a reclamar das horas que não passam até o final do expediente e a sentir-se aliviada por chegar viva em casa no final do dia, porém, tão suficientemente amarga, que contagiaria com tal gosto a vida dos que a rodeava. E enquanto ela não movesse seus intentos na busca do que seria sua razão de viver, pagaria essa pena. Uma pena que não era exclusividade dela. Pelo contrário, ela era só mais uma naquele presídio de condenados à infelicidade profissional

cotidiano · realidade · rotina · sociedade

A cidade que não para

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Silêncio na multidão – André Crespo

A cidade que não para, em uma de suas ações, recebeu aquele andarilho de braços abertos, abraçou-o forte, deu-lhe boas vindas e o soltou de imediato. Disse, meio apressada, que ele se virasse. Que ele se cuidasse. Pois ela não cuidaria dele. Eram muitos por ali. Eram tantas coisas por acontecer. E ela, a cidade, não podia parar por ele. Ela, afinal, nunca pararia. Por ninguém. E naquela correria, pela primeira vez depois de tanta andança, ele sentiu-se acolhido. Por mais irracional que parecesse, foi naquele mar de gente que tenta se virar e se cuidar sozinha, que ele se sentiu bem recebido. Ele era mais um naquele todo. Naquela cidade que acolhia qualquer andarilho e indivíduo, que pudesse se virar e se cuidar sozinho. Por isso, o andarilho ali resolveu parar. Pois por mais parado que ele ali estivesse, ele sempre estaria em movimento. Afinal, ele viveria dali por diante na cidade que nunca para.

cotidiano · família · rotina · sociedade

Solidão acompanhada

Supper Time – Horace Pippin
– Como foi seu dia, filha? – Foi bom. Normal. E o seu, pai? – Trabalhando muito. Ambos olharam para a mãe, dona de casa. Não perguntaram a ela como foi seu dia, pois já sabiam que nada demais teria ocorrido por ali, já que nada demais ocorria na vida deles – que saíam de casa, entravam em contato com todo tipo de gente e situações diversas – como que seria diferente ali dentro daquela casa? E não era diferente, de fato. Ao final do jantar – que era uma repetição do almoço – pai e filha se dirigiam aos seus quartos. Davam boa noite. Fingiam educação. Fingiam se importar com que a noite do outro fosse boa. E a mãe – que ficava para trás, para limpar a sujeira e organizar a bagunça – observava todo aquele fingimento automático da rotina. Observava que, ao fecharem suas portas, eles mergulhavam nas suas solidões. E seguiam assim: sozinhos, porém acompanhados. Em quartos vizinhos. Em uma vida compartilhada. Que quase sempre não levava a nada.
rotina · solidão · tristeza

Derrota solitária

Androniki – Giorgos Rorris
Esse é aquele momento em que a solidão vem e ataca. Pensou. Repousou as costas doloridas na poltrona. Buscou o sono, sua arma para tentar rebater o ataque, mas se lembrou que, há alguns meses, a insônia também tinha a atingido. Então, insone, teve que se render novamente. Sentir a dor de estar sozinha. Mais um dia a terminar assim. Sabia que esse era o preço que tinha que pagar por ter vivido daquela forma tão egoísta. As pessoas que pareciam na sua juventude tão substituíveis, tão descartáveis, agora pareciam tão fundamentais no auge dos seus cinquenta. Porém, ninguém permaneceu ao seu lado. E ela merecia aquela solidão. Por isso, não lutava mais. Deitaria e deixaria escorrer as lágrimas no rosto – sangues de mais uma derrota – até adormecer por umas poucas horas. Até acordar e viver mais um dia.
amor · casamento · rotina

Exercícios mentais

And the Bridegroom – Lucian Freud

A cada amanhecer, ela olhava o marido ao seu lado e se imaginava sem ele. Aquele exercício mental a fazia acordar sempre com os sentimentos de afeto renovados,  porque imaginar-se sem ele era doloroso demais para ela. A cada anoitecer, o marido observava a mulher pegar no sono e pensava que teria que ver aquela cena pro resto de sua vida. E sentia aquilo como uma rotina tediosa demais para suportar por tanto tempo. Logo, esse exercício mental dele foi destruindo o casamento. Acabaram se divorciando.

Divorciados, ela superou os fatos mais rápido do que pensava, pois aquela sua imaginação de outrora a tinha treinado psicologicamente para o pior.  Enquanto ele passou a sofrer pelo caos que ele mesmo provocou: sentiu falta daquela rotina segura que tinha e que, por pensar que seria para sempre, acabou destruindo.