amor · carnaval · romance · tristeza

Amor de carnaval

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Vânia Mignone

Pintei meu rosto com as cores do teu gosto. Sinalizei meu olhar com purpurina para te encantar. Sai com a alegria mais sincera que eu possuía. De bloco em bloco, cantando tuas músicas preferidas. Registrei todo meu percurso, joguei no mundo virtual, só a espera de te encontrar no real. Mas o samba acabou, o pagode passou, o axé deixou de retumbar. Nem todo álcool sustentou meu arfar. As dores no corpo – já não tão novo como nos primeiros carnavais – se espalharam até o calcanhar. Mas a pior dor foi por aqui não te encontrar. Nem contigo dançar. Ou na tua boca mergulhar. E esse foi o primeiro carnaval sem ti. O que devo fazer? Esperar até o próximo fevereiro para te ver? Não dá para saber. Mas penso que sim. Já que é de carnaval em carnaval que esse amor se faz. Sigo te amando. Enquanto durarem as cores na avenida. Enquanto no meu rosto brilharem as purpurinas.

Sinto que vou esperar. Já que amor de carnaval tem disso de ser alegre e esperançoso. Ainda que o resto do ano seja incerto e desastroso. Sigo o passo, o ritmo, até te rever.

amor · poesia · romance

Toda poesia em ti

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Ana Laura Torquato

Toda poesia cabe no teu olhar. A depender do dia, da hora ou breve instante. Já li poesia concreta enquanto está concentrada no teu trabalho e em busca de solução dentro da vastidão da tua mente pensante. Já li poesia simbolista enquanto ora aos teus deuses por dias melhores. Leio quase sempre poesias parnasianas enquanto se olha no espelho, se pinta ou retoca as cores que gosta de ter no rosto, não pelos outros, mas porque acredita na “arte pela arte”. Também leio muitas poesias sociais e marginais em todas as vezes que ajuda quem precisa, que levanta críticas políticas, que convida e encanta pessoas a agir em prol do bem de todos. Porém, das poesias que leio no teu olhar, o par que mais gosto é formado pelas poesias romântica e as eróticas… Ah, como sou grato por ser leitor exclusivo desses versos que só teu olhar consegue compor e fazer transitar tão rápido de um para outro. Leio todas essas poesias em ti e não me canso. Só me inspiro. Só me faz querer ler mais e mais. Cada verso que cabe no teu olhar.

amor · passado · realidade · romance · rotina

Sem vida

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Marina Esmeraldo

Acordou ao lado de mais uma estranha. A luz do celular despertou uma dor de cabeça que provavelmente o acompanharia pelo resto do dia. Saiu daquela cama desconfortável. Pensou no trabalho atrasado. Saiu com a boca impregnada pelo álcool da noite passada. Invadiu o trânsito da cidade que já fervia. Retornou àquele ambiente que chamaria de casa, se não fossem todas as lembranças que ainda transmitia. Memórias de uma vida que achava perfeita demais para ter sido vivida por ele. Mas que se findou e o deixou órfão no mundo. Deixou-o ser mais um homem a repetir suas tarefas dia após dia. Mais um humano que fugia das lembranças. Que corria para os braços de experiências desconhecidas. Só para preencher o vazio que ficara. O vazio que pesava sua existência no presente. De um passado que tinha nome de mulher. Uma mulher que não sabia onde estava mais. Que vive em outra conexão. Ou que nem vive mais. Como ele, que apenas segue sem vida.

amor · paixão · romance · sedução

Em descoberta

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Eulália Pessoa

Passou os dedos por todo o seu corpo. Fez arrepiar os pelos. Sentiu como se ele fosse pássaro a espalhar o pólen de sua flor por todo território possível. Mas ele era mais que pássaro. Ele incorporava animais que não conseguia nomear. Não conseguia pensar exatamente. Pensamento já era o que não conseguia acompanhar. Sentia apenas. Seguia cada toque, envolvimento, sensação. Deixou-se florir em pleno outono. Contrariou toda ordem da natureza. Recriou seu próprio meio ambiente naquele instante, numa penumbra, com aquele homem. Criou um cosmos inteiro para ser habitado só por aqueles dois amantes. Seres em pura descoberta. Em puro despertar.

amor · música · paixão · romance

Olhar meu, olhar teu

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Mark Keller

Existe uma coisa pior do que não ser vista por alguém que você tanto ver? Até pouco tempo atrás, eu não saberia dizer. Hoje sei que sim, existe algo pior. Acontece que, sinceramente, não ser vista por você tem sido o pior para mim. Há meses que eu só sei te ver. Todos os finais de semana, quando vou tocar piano naquele elegante bar e restaurante, você está lá. Cliente fiel. Porém, sempre solitário. Bebe um vinho acompanhado por um prato de queijos finos. Curte a música que eu toco, mas ao invés de me ver e encarar meu olhar, você faz o contrário: fecha os olhos e deixa a cabeça balançar suavemente no ritmo do piano. Você era tudo o que eu via e continuava vendo mentalmente, mesmo depois que pagava a conta e a noite acabava. Eu tinha esperanças de um dia ser vista por você. Até a noite de ontem, quando você chegou acompanhado por uma mulher. E você só tinha olhos para ela. Toquei a noite inteira, cheguei a repetir músicas que sei que você gosta. Mas nada. Ao final da noite, beijou-a. Intensamente. E eu vivi aquele momento do beijo alheio com profunda tristeza. Por fim, foram embora enamorados. Percebi que nunca teria mesmo o teu olhar. Já devia pertencer a ela. Mas não sei se meu olhar conseguirá pertencer a outro alguém, senão a você. E isso, sim, é bem pior do que não ser vista por alguém que tanto se ver.

amor · casamento · paixão · romance

Aparências do amor

xbao
Fragrant – Wang XiaoBo

“Perdi a conta de quanto tempo estamos juntos”. A moça ao lado da senhora gorda ouviu-a falar isso e observou. O marido daquela mulher era um homem aparentemente mais novo, mais bem cuidado. Ele a tratava com tanta atenção e isso irritou a moça que observava. A inveja a dominou. Lembrou do seu namorado. Sabia que cada mês a mais de namoro era contado por ela como uma vitória, por conseguir sustentar tal relacionamento. Não entendia como o seu namorado não se comportava tão dedicado e amoroso como aquele marido tratava sua esposa gorda. Certamente, ela era bem mais bonita e atraente. Porém, sua beleza não chamava nem um pouco a atenção dele. Na primeira oportunidade em que se viu só com o homem, com toda sua curiosidade desvalada, perguntou como ele poderia estar com “aquela senhora”. Ele não pareceu se surpreender com a pergunta, tampouco com o tom pejorativo. De pronto, respondeu – como quem já respondia rotineiramente o mesmo: “o segredo é que amor está relacionado ao que a pessoa é e não ao que ela aparenta ser”. Aquilo calou a moça pelo resto do dia e a fez compreender que pouco sabia sobre aquele sentimento. Desejou que um dia pudesse encontrar alguém que a ensinasse ou que se dispusesse a aprender junto com ela sobre o real significado do amor.

paixão · romance

Observador emocionado

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Miles away – Samuel Burton

Todos os dias, ela era o rosto certo que encontrava no ônibus das 18 e meia. O mesmo semblante cansado. Os mesmos fones de ouvido surrados formando uma barreira entre ela e o mundo ao redor. Ele sempre a observava. E sempre desejava falar com ela. Saber o que ela ouve, o que pensa, quais emoções ela guardava ali dentro de si. Ou, se ao invés de emoções, ela carregava um vazio. Porque ele percebia, pelos pequenos gestos corporais e traços que o rosto dela formava, que ali dentro dela ou viviam emoções muitas ou um vazio imenso. E imaginava um dia falar para ela – “Moça, aqui dentro vivem emoções tantas que poderiam preencher esse vazio teu… E sinto mais: que as emoções, que nascem em ti, seriam ótimas companheiras das emoções que vivem aqui”. Essas e outras tantas frases, ele falava em uma conversa imaginária ao longo do caminho do ônibus das 18 e meia. Não havia um dia sequer, dentro daquele ônibus, que ele não acreditasse que ele e ela foram feitos para viver tudo o que há de mais emocionante. Viver uma vida para além daquele caminho rotineiro. Fosse ela um ser emocionado ou um ser vazio, ele a admirava e imaginava sempre poder compartilhar com ela todas as emoções que a vida poderia oferecer.