amor · passado · realidade · romance · rotina

Sem vida

media-20180125
Marina Esmeraldo

Acordou ao lado de mais uma estranha. A luz do celular despertou uma dor de cabeça que provavelmente o acompanharia pelo resto do dia. Saiu daquela cama desconfortável. Pensou no trabalho atrasado. Saiu com a boca impregnada pelo álcool da noite passada. Invadiu o trânsito da cidade que já fervia. Retornou àquele ambiente que chamaria de casa, se não fossem todas as lembranças que ainda transmitia. Memórias de uma vida que achava perfeita demais para ter sido vivida por ele. Mas que se findou e o deixou órfão no mundo. Deixou-o ser mais um homem a repetir suas tarefas dia após dia. Mais um humano que fugia das lembranças. Que corria para os braços de experiências desconhecidas. Só para preencher o vazio que ficara. O vazio que pesava sua existência no presente. De um passado que tinha nome de mulher. Uma mulher que não sabia onde estava mais. Que vive em outra conexão. Ou que nem vive mais. Como ele, que apenas segue sem vida.

cotidiano · ego · pobreza · realidade · sociedade

Vitrines de desejos

779465_1
Paul Klee

Meu sonho é ter dinheiro para comprar essa bolsa, mas a vida está tão difícil! – uma moça argumentou com a amiga, paradas em frente a uma vitrine de bolsas e roupas caras. Logo ali perto, um mendigo sentado no chão, próximo a uma lanchonete, encarava a vitrine de salgados sendo reposta pelo funcionário. No papelão ao seus pés, a súplica escrita – me ajudem, estou com fome, a vida está tão difícil. Desviando do mendigo, passou o jovem com os olhos vidrados no celular. Observava o aplicativo de celular como uma vitrine de meninas próximas dele, mas nenhum “match” alcançado. Talvez ele também pensasse que “a vida está tão difícil”.
Cada pessoa tem a sua vitrine dos desejos. Vitrines que doem no ego e outras que doem no estômago mesmo. Dores específicas de cada um com sua vida tão difícil.

beleza · realidade · sociedade

Lamento feminino

26169934_850135415159238_3908225246302041762_n
Ilustração de Henn Kim

Colocou a digital na máquina e registrou final do expediente. Saiu segurando o choro. De ódio. Alcançou o ônibus que levaria até sua casa. Lá sabia que iria desabar. Ela acabara de receber uma reclamação do seu chefe. “Você deveria se arrumar melhor, usar uma maquiagem mais marcante”. Na sua frente, uma avaliação de que ela não tem tido bom desempenho. Mas ela sabia que o desempenho dela não tinha nada a ver com sua aparência. Ela era a melhor funcionária do setor. A empresa era que estava sendo passada para trás pela concorrência, que tinha visão mais moderna sobre o mercado. Porém, passar a culpa para a falta de um batom, um salto agulha ou decote, talvez, era muito mais fácil. Só mais uma atitude que marcava a mesmice tradicionalista e ultrapassada daquela empresa. Estava repleta de ódio por isso! Todos os seus méritos profissionais, alcançados com muita dedicação ao longo dos anos, não serviria para aquele chefe? Sentiu-se menosprezada! E se fosse um homem, teria que se maquiar? Não conseguiu segurar o choro de ódio até chegar em casa. No ônibus, ela sabia que estava sendo observada. Certamente iriam sussurrar ou imaginar que era mais uma mulher sensível sofrendo em público… Lamentos de ser mulher numa sociedade hipócrita.

depressão · realidade · sofrimento · solidão · tristeza · vida

Sem propósito

eddy
 Eddy Stevens

Bateu um desespero forte no fundo do peito sozinho. Sentiu as lágrimas quentes queimarem a pele suja de dias sem cuidado. Lamentou sua fraqueza. Desfez-se em choro. Incompreendida de si, não tinha razão determinada para aquele sofrer. Chorava por nada que era. Nada que vivia. Apenas a incerteza das manhãs e a certeza noturna de dormir para acordar noutro dia cheio de incertezas. Vazia de propósitos, lentamente vivia. Uma vida que não reconhecia sua. Imersa num dia a dia tão sem rumo. E o pior era não saber para qual rumo correr para ser mais feliz. Talvez fosse essa falta de compreensão sobre si mesma que a fazia desesperar-se todo dia. Era só mais uma humana vivendo sem sentido. Haveria alguma dor maior do que essa de viver sem propósito? Não sabia. E quanto mais afundava no próprio choro, mais profundo era seu sufoco. Talvez seja isso que chamam depressão. Uma pressão mental exercida sobre a própria mente. Comprimindo tudo o que era numa vazio que achava viver. Num nada que achava ser. E todas essas reflexões são versos que escapam pela mente de quem chora sua própria depressão. Lágrimas que escorrem agora. Mundo afora.

preconceito · realidade · sociedade

Subversão

ribs
Matheus Ribs

Desde muito novo, observava o caos vivido naquela sua comunidade. Percebia o confronto diário do seus semelhantes com aquela realidade opressora. Notava a grande diferença entre os seus mais próximos e aqueles poderosos: a cor. Viu mãe sofrer abuso de gente de cor diferente. Viu pai ser demitido por gente de cor diferente. Viu amigos se revoltarem contra aquele sistema. Viu muitos se subverterem com armas às mãos. E viu muitos desses perderem a vida. Diante de tanta coisa vista, ele percebeu que, apesar de toda revolta, o sistema permanecia o mesmo: esmagava sua gente e excluía sua cor. Então, ele também se subverteu. Mas escolheu outras armas: livros, conhecimento, saber. Essas eram as grandes armas que as pessoas de cor diferente usavam para manter o sistema. Nada mais lógico do que reverter tamanha opressão através da sua própria educação.
Mas como toda arma poderosa, o ensino nunca lhe foi ofertado com qualidade nem facilidade. Porém, sabia que toda subversão exigia força e luta. Lutou. Por anos, o estudo foi sua maior tática de guerrilha. Sabia, ali dentro de si, que poderia ser líder de uma revolução. De fato, revolucionou, após alcançar um cargo com poder de decisão. Diariamente, a cada sentença ditada sem julgar pela cor, uma pequena revolução se fazia com sua assinatura. E cada rubrica fazia em memória das vidas de cor que foram perdidas e por aquelas que ainda viviam naquele caos. Um caos que estava longe de ser resolvido, mas contra o qual nunca deixaria de lutar.

realidade · religião · sociedade

Proteção

salgado
Sebastião Salgado

Acordou naquela madrugada gelada e pediu em pensamento “Senhor, me protege!”. Não sabia ao certo pra quem dirigia esse pedido, quem era aquele “senhor”, de quem era aquele Deus, se poderia ser o seu Deus também. Não sabia. Ocorre que no dia anterior, vagando por aí, fazendo o que era de costume seu – “pedir uma ajudinha” – acabou passando em frente a uma igreja. Lá de dentro saia o discurso de um homem falando que todos deveriam pedir “Senhor, nos proteja, com força, com fé. Pois no mundo de hoje, em que as ameaças estão a cada esquina e o Estado não nos assegura, só com proteção de Deus…”. Ele ficou ali próximo à igreja e continuou pedindo por ajuda, “uma moedinha”, mas notou que as pessoas de fé que saiam dali, desviavam dele ou fingiam não o ver ou o ouvir. Assim como quase todas as outras pessoas. E por um instante ele notou que talvez ele fosse uma daquelas “ameaças” que ficam a cada esquina e que o Deus daquelas pessoas estariam o afastando delas, para as proteger. Pensar naquilo o abalou profundamente. “Como conseguirei ajuda dessas pessoas, se tem um Deus protegendo elas de mim?”. E pelo resto do dia, ele desistiu. Dormiu com as poucas cobertas que tinha. Com o oco rotineiro na barriga. E acordou naquela madrugada fria, com a sensação de que sua sede por fome agora era bem menor do que a sede por proteção divina.

família · infância · realidade · vida

Revelação

sophia
Sophia – Christos Tsimaris

Nada é para sempre. Aquela frase e seu significado tão pesado chegou à compreensão da menina numa noite qualquer, antes de dormir. De repente ela imaginou que ela não teria seus pais para sempre. Não teria a mesma casa. Os mesmos amigos. E que o príncipe encantado talvez não seja o pai dos seus filhos ou o marido presente até sua velhice. Talvez na velhice, não reste mais nada nem ninguém além dela mesma. E pior… Talvez, nos últimos instantes da sua pequena vida ela perceba que nem ela era suficiente para preencher aquele espaço chamado de “para sempre”. E aquilo foi extremamente assustador, de início. Mas como nada é para sempre, logo após adormecer, toda essa revelação se esvairia e a pequena menina amanheceria no outro dia sem se preocupar com o que era para sempre ou não. Ao menos, por enquanto.