cotidiano · morte · raiva · vida

O imprevisto

Drag – Zack Zdrale

Nunca soube como lidar com a imprevisibilidade da vida. Quanto mais admitia isso para si mesmo, mais surgiam situações fortuitas no seu dia-a-dia. Frustrava-se cotidianamente. Vivia em um inconformismo quase absoluto. Sentia que não tinha capacidade de planejamento. O que ganhava era sempre uma profunda descrença em si mesmo ou uma raiva impertinente das pessoas ao seu redor. Como podia ser a vida assim tão inesperada? E então, em um desses acontecimentos imprevistos da vida, toda a raiva, o inconformismo e a frustação se acabaram. Uma causa completamente imprevista o atingiu. Morreu de forma tão fugaz que nem teve tempo de refletir sobre a impermanência daquela sua vida. Cessou-se, para ele, o imprevisto.

raiva

Em combustão

Sem título – Françoise Nielly
“O que é? O que estão olhando?”. Ela sabia a resposta. Todos olhavam a raiva, expressa, clara e pulsante. A raiva feminina estampada no rosto delicado dela. Sua respiração parecia alimentada por um poço fundo de petróleo e a faísca de fogo que o seu coração forneceu foi uma chama alta e farta demais. Estava em combustão intensa. Odiava ter que admitir, mas já perdera o controle sobre a situação. E não podia fazer nada a não ser tolerar os olhares implacáveis daquela sociedade importuna.
Não! Não, não pode ser. A raiva alcançava seus níveis supremos: uma lágrima ousara sair de seu olho direito. Maldito! Sempre aquele olho fraco que se entregava primeiro. Fechou-se na escuridão da sua mente, para não ter que suportar admitir que além de fora do controle, estava fora de si. Perdeu-se na sua intriga interna. Desejou sumir.
Os transeuntes não sabiam o porquê daquela moça estar ali, na rua, com tamanha expressão de ódio. E não seria ela que contaria ao mundo o porquê. Sumiu dentro de si. Silenciou-se para bastar sua raiva gritante.