amor · passado · realidade · romance · rotina

Sem vida

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Marina Esmeraldo

Acordou ao lado de mais uma estranha. A luz do celular despertou uma dor de cabeça que provavelmente o acompanharia pelo resto do dia. Saiu daquela cama desconfortável. Pensou no trabalho atrasado. Saiu com a boca impregnada pelo álcool da noite passada. Invadiu o trânsito da cidade que já fervia. Retornou àquele ambiente que chamaria de casa, se não fossem todas as lembranças que ainda transmitia. Memórias de uma vida que achava perfeita demais para ter sido vivida por ele. Mas que se findou e o deixou órfão no mundo. Deixou-o ser mais um homem a repetir suas tarefas dia após dia. Mais um humano que fugia das lembranças. Que corria para os braços de experiências desconhecidas. Só para preencher o vazio que ficara. O vazio que pesava sua existência no presente. De um passado que tinha nome de mulher. Uma mulher que não sabia onde estava mais. Que vive em outra conexão. Ou que nem vive mais. Como ele, que apenas segue sem vida.

amor · paixão · passado

Tempo e um tanto de álcool

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A stolen kiss – Ron Hicks

O terceiro copo da bebida forte já acabava quando ele conseguiu perguntar, em rápido e bom tom: por que a gente não deu certo mesmo? Ela não esperava a pergunta. Ele nunca era tão ousado. Mas sabia que o tempo trazia lá algumas mudanças. Se não o tempo, talvez fosse o álcool… E soube que era esse último, quando respondeu sem pensar nas consequências daquilo: por que a gente não pode ainda vir a dar certo? Ele não esperava aquela resposta. Mas decidiu não perder mais uma vez outra chance de recomeçar com aquela mulher. Deixaram de se questionar sobre o passado. Passaram a se envolver no futuro. Pelo menos, até enquanto o efeito do álcool não passar. E sempre com a esperança de que o efeito do tempo possa os ajudar a dar certo. Ajudá-los a continuar.

passado · sofrimento · solidão · velhice · vida

E se?

Sorrowing Old Man (At eternity’s gate) – Vincent van Gogh

 

Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?… E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!… Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: “Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?”.