amor · casamento · feminismo · força · paixão · sofrimento

Por força, da força

magritte
René Magritte

Ela se apaixonou pela força dele. Entregou-se sem saber que o relacionamento a levaria a força para anos de uma vida nunca desejada. Ao longo desses anos, descobriu que a força dele era tamanha também nas imposições de como ela devia se comportar. No tom de voz aumentado quando algum desentendimento surgia. No jeito de olhar a repreendendo em público. E entre quatro paredes,na força do sexo em horas indesejadas. Mas, aos poucos, ela ia percebendo que essa força revelava uma fraqueza descomunal existente naquele homem. Foi se descobrindo mais forte que ele, dia após dia. Sentia-se mais forte que ele quando separava sua vida pessoal da profissional e, apesar dos problemas, conquistava cada vez mais espaço mundo afora. E os méritos alcançados lá fora não a impedia de manter tudo organizado dentro de casa. Tornou-se mais forte que ele, quando começou a questionar as imposições e comportamentos daquele homem fraco. E tomou toda a força que restava nele para si, quando acabou com o relacionamento e se libertou, sem medo, para continuar a viver do seu próprio jeito forte de ser.

amor · paixão · romance · sedução

Em descoberta

eulalia pessoa
Eulália Pessoa

Passou os dedos por todo o seu corpo. Fez arrepiar os pelos. Sentiu como se ele fosse pássaro a espalhar o pólen de sua flor por todo território possível. Mas ele era mais que pássaro. Ele incorporava animais que não conseguia nomear. Não conseguia pensar exatamente. Pensamento já era o que não conseguia acompanhar. Sentia apenas. Seguia cada toque, envolvimento, sensação. Deixou-se florir em pleno outono. Contrariou toda ordem da natureza. Recriou seu próprio meio ambiente naquele instante, numa penumbra, com aquele homem. Criou um cosmos inteiro para ser habitado só por aqueles dois amantes. Seres em pura descoberta. Em puro despertar.

amor · música · paixão · romance

Olhar meu, olhar teu

keller
Mark Keller

Existe uma coisa pior do que não ser vista por alguém que você tanto ver? Até pouco tempo atrás, eu não saberia dizer. Hoje sei que sim, existe algo pior. Acontece que, sinceramente, não ser vista por você tem sido o pior para mim. Há meses que eu só sei te ver. Todos os finais de semana, quando vou tocar piano naquele elegante bar e restaurante, você está lá. Cliente fiel. Porém, sempre solitário. Bebe um vinho acompanhado por um prato de queijos finos. Curte a música que eu toco, mas ao invés de me ver e encarar meu olhar, você faz o contrário: fecha os olhos e deixa a cabeça balançar suavemente no ritmo do piano. Você era tudo o que eu via e continuava vendo mentalmente, mesmo depois que pagava a conta e a noite acabava. Eu tinha esperanças de um dia ser vista por você. Até a noite de ontem, quando você chegou acompanhado por uma mulher. E você só tinha olhos para ela. Toquei a noite inteira, cheguei a repetir músicas que sei que você gosta. Mas nada. Ao final da noite, beijou-a. Intensamente. E eu vivi aquele momento do beijo alheio com profunda tristeza. Por fim, foram embora enamorados. Percebi que nunca teria mesmo o teu olhar. Já devia pertencer a ela. Mas não sei se meu olhar conseguirá pertencer a outro alguém, senão a você. E isso, sim, é bem pior do que não ser vista por alguém que tanto se ver.

amor · casamento · paixão · romance

Aparências do amor

xbao
Fragrant – Wang XiaoBo

“Perdi a conta de quanto tempo estamos juntos”. A moça ao lado da senhora gorda ouviu-a falar isso e observou. O marido daquela mulher era um homem aparentemente mais novo, mais bem cuidado. Ele a tratava com tanta atenção e isso irritou a moça que observava. A inveja a dominou. Lembrou do seu namorado. Sabia que cada mês a mais de namoro era contado por ela como uma vitória, por conseguir sustentar tal relacionamento. Não entendia como o seu namorado não se comportava tão dedicado e amoroso como aquele marido tratava sua esposa gorda. Certamente, ela era bem mais bonita e atraente. Porém, sua beleza não chamava nem um pouco a atenção dele. Na primeira oportunidade em que se viu só com o homem, com toda sua curiosidade desvalada, perguntou como ele poderia estar com “aquela senhora”. Ele não pareceu se surpreender com a pergunta, tampouco com o tom pejorativo. De pronto, respondeu – como quem já respondia rotineiramente o mesmo: “o segredo é que amor está relacionado ao que a pessoa é e não ao que ela aparenta ser”. Aquilo calou a moça pelo resto do dia e a fez compreender que pouco sabia sobre aquele sentimento. Desejou que um dia pudesse encontrar alguém que a ensinasse ou que se dispusesse a aprender junto com ela sobre o real significado do amor.

paixão · romance

Observador emocionado

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Miles away – Samuel Burton

Todos os dias, ela era o rosto certo que encontrava no ônibus das 18 e meia. O mesmo semblante cansado. Os mesmos fones de ouvido surrados formando uma barreira entre ela e o mundo ao redor. Ele sempre a observava. E sempre desejava falar com ela. Saber o que ela ouve, o que pensa, quais emoções ela guardava ali dentro de si. Ou, se ao invés de emoções, ela carregava um vazio. Porque ele percebia, pelos pequenos gestos corporais e traços que o rosto dela formava, que ali dentro dela ou viviam emoções muitas ou um vazio imenso. E imaginava um dia falar para ela – “Moça, aqui dentro vivem emoções tantas que poderiam preencher esse vazio teu… E sinto mais: que as emoções, que nascem em ti, seriam ótimas companheiras das emoções que vivem aqui”. Essas e outras tantas frases, ele falava em uma conversa imaginária ao longo do caminho do ônibus das 18 e meia. Não havia um dia sequer, dentro daquele ônibus, que ele não acreditasse que ele e ela foram feitos para viver tudo o que há de mais emocionante. Viver uma vida para além daquele caminho rotineiro. Fosse ela um ser emocionado ou um ser vazio, ele a admirava e imaginava sempre poder compartilhar com ela todas as emoções que a vida poderia oferecer.

amor · paixão · romance

Cegos de amor

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Oswaldo Goeldi

Ele a deixava cega. Não era por mal. Todos os seus breves encontros cotidianos eram tão agradáveis que o sorriso da moça se espalhava largo e farto pelo rosto formoso, comprimindo os pequenos olhos em dois fios por onde a luz do olhar ainda refletia. No início, era essa a causa da cegueira que ele provocava. Com ela, os comentários engraçados e leves saíam mais fáceis e sinceros. Era um encontro de almas leves, regados a risos e conforto pela presença do outro. E tal interação foi evoluindo, até que descobriu como causar outro tipo de cegueira nela: beijando-a. A moça fechava os olhos tão fortemente ao se deixar beijar. Ele não fazia o mesmo sempre: gostava de fitar o rosto dela colado ao seu durante o beijo. Considerava essa a melhor forma de aproveitar aqueles momentos tímidos. Momentos esses em que desejava que ela acabasse cega de amor por ele. Pois, cego assim, ele já estava por ela. Desde o primeiro simples riso que ela esboçou. Desde o primeiro riso que nele ela provocou. Risos de dois cegos de amor.

amor · autoconhecimento · liberdade · paixão · sedução

Adeus de vendaval

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Panzer

Querido, cansei de suas sutilezas. Quero um companheiro mais efusivo. Vou em busca agora de viver dias mais intensos. Pois decidi que sou mulher que merece declarações de amor profundas. Versos concretos. Amor de tirar o fôlego. Sexo que seja um vendaval. Gestos diários de furacão. Sei que isso irá te surpreender, pois nunca pareci uma mulher que gostasse de um relacionamento tão escaldante. É que isso só descobri depois de viver esses anos mornos ao teu lado. E não julgo que tenha sido tempo perdido. Muito pelo contrário! Teu amor sutil, teus gestos de calmaria, teu tratamento de brisa, fizeram eu me conhecer ainda mais. Descobri essa mulher ávida por intensas loucuras amorosas. E tenho que saciá-la. Por isso, digo adeus, querido. Deixo-te com gratidão. E desejo que encontre uma mulher que seja brisa morna e estável para ti. Pois eis algo que já não sou.