amor · morte · velhice

Último pedido

lilas
Lilacs in a window – Mary Cassatt

A respiração ameaçava parar. Já não conseguia se mover, as articulações reclamavam. O pensamento lerdo observava, de um lado a outro do quarto iluminado, pessoas desconhecidas. Não estava exatamente triste, apesar de sentir que estava próxima do fim, mas se sentia apreensiva por não conhecer ninguém. As pessoas ao seu redor a reconfortavam, outras deixavam lágrimas caírem… Mas por quê? Quem era ela para aquelas pessoas? Qual sua importância? Ela não sabia, mas sentiu que era o momento do seu último pedido. Juntou forças e disse de uma vez só: “Quero ver e sentir o cheiro de flores lilases”. Ninguém entendeu, mas foram em busca de realizar aquele desejo. Com as flores em mãos, ela fechou os olhos e inspirou o cheiro simples daquelas flores. Sentiu uma felicidade incomum invadir sua alma. Sorriu para todos e deixou sua vida esvair.
Do outro lado do cômodo, um senhor tão velho quanto a falecida na cama, fechou os olhos e sorriu triste. Era sua esposa que morria, deixando-o feliz ao saber que, apesar do mal de Alzheimer, apesar de não reconhecer seus filhos e seus netos, não se esqueceu do amor deles dois. Foi numa tarde ensolarada, enquanto ela cultivava um jardim de lilases que ele a conheceu. E será num campo todo lilás que eles se reencontrarão.

defeitos · morte · saúde · sofrimento · tristeza · vida

Colecionadora de perdas

colecionadora
The Physician (detail) –  Christina Ridgeway

Você não tem coração. Foi o grito quase cuspido na sua cara. Ela não se importaria com isso se fosse qualquer outro dia. Mas aquele era o começo de um plantão e já teve três pacientes falecidos. E ali na sua frente, uma mãe chorando em prantos, a culpava pela morte do filho. Ela era médica de urgência há tantos anos. No início, uma morte era uma pedra bastante pesada para carregar. Mas com o tempo foi diminuindo o tamanho dessas pedras, para que ficasse mais cômodo carregá-las. Deixou seu emocional de lado e adotou seu lado mais racional. Assim, com o tempo, era uma médica que colecionava pedrinhas. Muitas vidas foram salvas. Mas isso não a fazia abandonar aquelas pedrinhas. Até ouvir aquelas palavras. Uma pontada de emoção veio com força ali onde a mulher dizia faltar um coração. E a médica fugiu para seu consultório. Deixou suas pedrinhas se transformarem em lágrimas e, como nunca antes, desabou em choro. Mas foi aí que ela pegou o estetoscópio sempre pendurado no pescoço, colocou nos ouvidos e pôs no próprio peito para ouvir seu coração. Esse simples gesto a fez retomar a racionalidade de antes: afinal, havia um coração ali. Engoliu o choro. Limpou as lágrimas. E foi colecionar outras pedras. Colecionar mais perdas.

amor · beleza · casamento · morte

Olhar de elogios

Freay’s tears – Gustav Klimt
O marido nunca foi homem de elogiar. Mesmo assim ela aceitou viver ao lado dele. É que havia algo mais poderoso que o elogio: o olhar dele. Todas as vezes que ela se arrumava bem, o marido a olhava de uma maneira única, um olhar cheio de paixão e admiração. Era esse olhar que a enchia de graça e que a fazia tão bem. Porém, a velhice veio e o marido acabou cego. E a mulher teve que aprender a viver sem aqueles olhares apaixonados. Permaneceu ao lado dele, por consideração a todos os anos de amor. Mas perdeu a graça de antes. Até o dia em que, nos braços da morte, o marido cego a encarou no vazio e falou: “Você é a mulher mais linda que já conheci. Nunca deixou de ser. E certamente agora você deve estar encantadora. Obrigado por me permitir viver ao seu lado”. Quem ali estivesse ou por ela passasse, veria uma viúva cheia de graça, como nunca se imaginou ser possível ver.
morte · vida

De coração

Crepuscular Old Man – Salvador Dali
Disseram-lhe que tinha uma bomba relógio dentro do peito. Recordou que desde menino acreditava que guardava no peito o poder de ser um super homem. Descobriu na adolescência que esse poder também era capaz de o tornar frágil. Usou para o mal e para o bem todo potencial daquilo que tinha dentro do peito. Desde as mais criativas histórias de criança às paixões e intrigas. Dos planos de filantropia aos planos de vingança. Em tudo, agia muito com o coração. Mas hoje ouviu que aquele mesmo órgão poderoso agora tinha uma contagem a correr regressivamente. E quando findasse essa contagem, o levaria junto para o seu fim. O coração que o fez viver de forma tão intensa desde menino, era o mesmo que o levava a morrer. Vivia e morreria em razão daquilo que guardava dentro do peito.
morte · vida · vingança

Vingou-se

Rostro 2 – Rossina Bossio

Depois que a irmã mais velha roubou o seu namorado platônico, ela contou para os pais que a irmã havia perdido a virgindade muito cedo. Os pais castigaram a filha mais velha, mandando ela para um internato. Assim, se vingou. Depois que o marido pediu divórcio, ela encheu a cabeça do filho pequeno de coisas ruins sobre o pai. O filho nunca teve um bom relacionamento com o pai. Assim, se vingou. Depois que uma amiga a reprovou por ela se comportar de forma tão mesquinha, ela acabou com a amizade e espalhou a todas as outras amigas que aquela era falsa, que sempre falava mal das outras. Assim, se vingou. Essas e outras memórias rondavam a mente daquela mulher, enquanto ela estava na quimioterapia. Percebeu que todos os momentos felizes da sua vida foram sempre ligados à vingança. Mas que nunca havia sentido a felicidade de fato. Mas ao invés de voltar atrás e pedir perdão por suas vinganças, a mulher, com tanta raiva de si e sem muitas chances de vencer aquela doença que a alcançou tão cedo, desistiu de se cuidar e passou a esperar sua morte chegar. Quando morresse, se vingaria de si mesma. E aquele seria seu último momento feliz.

guerra · infância · morte · sociedade

Entre tiros

Guns – Andy Warhol
Som de tiro. Não só um. Muitos tiros. Para seus ouvidos, não era barulho. Era som, como dos passarinhos na primavera. Mas diferentes dos passarinhos – que só apareciam na primavera – os tiros não tinham estação. Eram sempre presentes. E nunca tivera medo disso. Não até ouvir aqueles tiros. Não eram tiros das armas do pai. Sabia disso. E soube da pior forma. Sangue. No chão da sua casa, havia muito sangue. Descobriu o corpo do pai morto na sala. De súbito, acordou. Aquela lembrança novamente durante o sono. O homem levantou, lavou o rosto para afastar aquela memória. Lembrou as palavras do homem que matou seu pai: “menino, não se preocupe, agora vamos te levar para um país melhor e terá uma educação melhor. Não precisará viver entre tiros”. Diante do espelho, ele encarou seu próprio riso. Muito enganado. Apesar do seu passado renegado, com seus pais talibãs mortos, após ser supostamente acolhido por outra nação, educado e formado, agora era policial. E escolhera aquela profissão só para continuar vivendo entre tiros. Porque ele foi criado assim. Porque aqueles foram os valores ensinados por seus pais. E sairia para mais um dia de trabalho. Para atirar. Porque aquele era o som da sua vida.
morte · vida

Tabuleiro em construção

Evgeniy Monahov

 

A morte é algo realmente desconsertante. Não dá para viver só pensando nela. Tampouco dá para viver sem pensar nela. Se se vive pensando na morte, não se tem sossego na mente para desfrutar das felicidades que surgem na vida. Se se vive sem pensar na morte, não se dá o devido valor a essas felicidades. A morte é coisa que não se pode exagerar, nem menosprezar. Ela vem e vai, quando em vez, para te lembrar que nada é constante. Ela vem, desconserta algo aqui, retira uma peça do tabuleiro da vida, e deixa espaço para os vivos consertarem. Para que provem suas capacidades de reconstruir. E seguir construindo e reconstruindo, com a medida certa de consciência da morte, até que seja nossa vez de sermos retirados desse tabuleiro em construção.