casamento · força · medo · sofrimento · violência

Reflexos de uma dor

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Victoria – Richard Scott

O punho ainda estava dolorido. Mas aquela dor não era nada perto do forte aperto que carregava no peito. Passou o dia inteiro sem coragem de se encarar nos espelhos da casa. O reflexo de mulher forte, que ela vestia todos os dias, certamente naquela manhã devia ter amanhecido menos convincente. Não sabia se os outros que encontraria ao longo do dia notariam isso. Mas ela sentia isso e sabia que sentir era mais triste do que transparecer. Nunca pensou que o homem que chamava de amor um dia a deixaria com aquele aperto no peito. Com aquela dor no punho. Com aquele sentimento de que já não é mulher forte o bastante para viver. O que vivera noite passada foi claramente violência doméstica. Mas nunca imaginou que seria ela mais uma mulher nas estatísticas… Ou melhor, não seria. Porque não tinha força pra falar, denunciar, expor aquilo que viveu. E isso só a machucava mais. Só afastava mais a lembrança de que, até ontem, era uma mulher forte, bem resolvida, com controle sobre si. Mas algo ali dentro ainda insistia em lembrar dessa mulher que foi. E, meio ao vazio existencial pós violência, conseguia esperançar sobre um dia enfrentar aquele suposto amor, encarar a realidade e olhar seu reflexo com coragem de novo. Quem sabe, um dia. 

amor · medo · sofrimento · tristeza

Medos omitidos

medo
Kris Knight

“Eu estava chorando, meu amor. É que estou com medo de te perder. Eu me sinto insuficiente para ti nos últimos anos. Como se você tivesse evoluído tanto e eu, sem querer, tivesse ficado parada, sem me mover, em algum estágio muito anterior a sua evolução. E não quero te impedir de evoluir, tampouco quero deixar você ir sem mim. Eu não me reconheço sem você. Por isso choro quase todos os dias…”
Ela sentiu o nó na garganta. Pestanejou e afastou todos aqueles pensamentos. Apenas respondeu seu namorado com uma frase rápida “acabei de acordar, por isso meus olhos estão inchados” e um riso forçado. Não era a primeira vez que ele perguntava porque aquele inchaço no olhar da mulher. E ela sempre tinha que engolir aqueles pensamentos, aquelas verdades, afinal, não queria nunca ter que assumir seus medos. Não queria correr o risco de ser frágil e perder sua única fortaleza: o seu amor. Sem saber, no entanto, que a cada dia que escondia esses medos era mais um passo atrás da evolução que ela tanto queria fazer também.