família · infância · maternidade · pai

Tecido amor

tecido
Eve ou L’amour en Blanc – István Sándorfi

Sente aqui, deixa eu te contar uma coisa. Eu amei sua mãe. Loucamente. Anos inteiros, me desfiz e me fiz de amor por ela. Como uma máquina de tecer um casaco de lã macio. Feito pra proteger a pele do frio. Era mais ou menos assim meu trabalho de amor por sua mãe. Mas acabou a lã. E a máquina hoje pinça o tecido sem construir o casaco. Apenas pinça e aos poucos forma um buraco que deixará o frio passar. Já não servirá ao propósito de proteger a pele. Por isso resolvemos parar a máquina. Senão o buraco ficará maior. E algumas coisas não podemos deixar crescer. Como desgosto, decepção, frieza, desconfiança, raiva e intrigas. Como esse buraco no casaco de lã. Não pode aumentar. Esse casaco é a nossa família. Essa máquina é nosso casamento. A lã, nosso amor. Na falta da lã, resolvemos parar a máquina, para não acabar com o que já foi costurado com tanto zelo, nosso casaco. Nossa família, feita para nossa proteção. Por isso, nos separamos, como casal, mas seremos sempre a pele que esse casaco irá proteger. Junto com você, minha filha

amor · aprendizado · maternidade

Seu grande amor

amor
Haddon Sundblom

Encontrou a filha adolescente escondendo o choro. Ela explicou que havia terminado o namoro. Primeiro namoro da filha. Através de um soluço, a menina deixou escapar que era o amor da sua vida. Mas era o fim. A mãe respirou e pensou antes de falar. Sabia que a mensagem que diria era importante. Com calma, então, disse: Filha, chore. Faz bem deixar fluir para fora a tristeza através das lágrimas. Mas saiba que o grande amor da sua vida está dentro de você. Acredite, você se apaixonará mais e mais, por outros. Muitos vão passar. Mas você será a sua grande companhia ao longo de toda a vida. Não deixe de se apaixonar por si. Porque pior do que dar um fim com os outros é dar um fim consigo mesma. Então, chore, querida. Mas permita-se sorrir depois, você ainda tem a si mesma, seu grande amor.

família · liberdade · maternidade

Enlaçados

The crack up – Charles Blackman

Alguns laços nunca desatam. Ela compreendeu isso depois de deixar o filho na porta da casa do pai. O homem olhou-a nos olhos e demorou-se. Ela também demorou ali naquele olhar. E naquela fração de segundos, toda a história deles passou como um clarão de um raio na memória. Mas depois da luz, veio o estrondo forte do término. Das brigas, desentendimentos, descompassos. Não conseguiram mais seguir seus planos juntos. Divorciaram-se. Porém alguns laços nunca desatam. E o filho era aquele nó. Não adiantava ela ou ele tentar puxar o filho só para si. O nó apertaria mais e nó apertado dói. Cada um deles teria que viver com o outro, mesmo separados, mas mantendo aquele laço firme, sem deixar desatar, tampouco arrebentar. Somente com o passar dos anos, depois que mãe e pai fizessem cada um seu papel, é que esse nó aos poucos irá afrouxar. Não se partir por completo, apenas desapertar. E, assim, deixar cada um seguir – enlaçados, porém livres.

amor · infância · maternidade · tristeza

Sem mãos dadas

Preludio para una nueva era – Denis Nuñez Rodriguez
Ela dispensou a mão que a mãe, carinhosamente, ofereceu. Atravessaram, sem mãos dadas, a rua. Aquele ato fez a mãe desabar dentro de si. Nos últimos dias, a menina, que nem doze anos tinha ainda, já se negava a dormir com a mãe, a pedir ajuda no banho, a convidá-la para passear e agora nem andar de mãos dadas queria mais. Não demoraria muito para que a filha largasse os brinquedos, escolhesse as próprias roupas e saísse sem dar motivos… Já que nem ajuda precisava para atravessar uma rua. Esse pensamento fez a visão da mãe, sem querer, embaçar, cheia de lágrimas. Ela não sabia prever qual seria a próxima oportunidade que teria para andar de mãos dadas com sua pequenina garota. Talvez na sua velhice, quando fosse ela quem não pudesse caminhar sozinha. E, além disso, quando a filha voltasse a se importar com aquele simples ato de dar as mãos.
infância · maternidade

O fenômeno do fermento

Saturday afternoon in a girl’s life – Jeffrey Beauchamp
 
No domingo, foi para cozinha com a filha de cinco anos fazer um bolo de chocolate para alegrar o dia. Pediu para a menininha que a ajudasse, procurando pelo pequeno pote de fermento. Muito esperta, a menina achou rápido e logo questionou para que servia fermento. Pacientemente, a mãe explicou que uma pequena colher de fermento fazia o bolo crescer. O fenômeno da fermentação foi assistido por ambas. E o domingo foi pura delícia.
Na segunda, depois de voltar do trabalho, a mãe procurou pela filha e a encontrou toda suja de pó branco. Mas o que era aquilo? A menina, pacientemente, explicou para a mãe que era o fermento que ela derramou em cima de si mesma com a expectativa de crescer rápido. Diante daquela inocente cena cômica da filha, a mãe sorriu triste. Uma tristeza por saber que, já tão novinha, a filha já desejava crescer. Abandonar a infância. Sem saber que o resultado do fenômeno do crescimento humano não é assim tão fácil. Nem tão delicioso.
cotidiano · família · maternidade

Uma deusa

Lady with a muff – Gustav Klimt
Era uma deusa e não sabia. Acordava junto com o sol. Seus passos transformavam o dia. O toque suave de seus dedos acordava o sono de suas crianças. O café que preparava tinha o poder mágico de dar força para seu homem enfrentar os desafios da rotina. Controlava o tempo. Preparava-se para o trabalho ao tempo que embarcava as crianças no ônibus escolar. Selava a sorte diária do marido com o tocar de seus lábios. Partia para o corre-corre, bela, discreta, mas sempre encantadora. Tomava as decisões sem nunca deixar de ponderar o bem-estar de todos. Retocava o batom, enquanto retornava para o seu lar. As crianças eram postas para estudar. Alimentava a família. Com um suspiro, determinava o anoitecer. Com sua voz angelical, introduzia as crianças no mundo dos sonhos. Satisfazia o marido. E acalmava-se, por fim. Tantos destinos em suas mãos, tantos detalhes. Era uma deusa e ninguém sabia.
maternidade · morte

Súplicas em vão

Rosa artificial – Alejandro Boim
“Canta baixinho, mãe, aqui perto de mim. Canta aquela canção de ninar, eu queria tanto dormir… Queria desligar os pensamentos por um momento. Oh mãe, eu sei, não fiz todas as minhas tarefas de casa, meus deveres, minhas responsabilidades, minhas dívidas. Está bem, mãe, não sou mais uma criança, mas me perdoa, eu só queria um instante feliz nos seus braços… Mãe? Não some, mãe! Fica comigo… Ou me leva com você. Só com você”.
O lamento se ouvia de longe. A moça não aceitava a morte da mãe. Comentavam que ela não gostava da mãe enquanto viva; que tampouco se despediu dela. Arrependida, definhava em cima do túmulo, em posição fetal, conversando as conversas que nunca teve com sua mãe.