amor · autoconhecimento · felicidade · liberdade

Entre magia e mentiras

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Meghan Howland

Acordei tão cedo essa manhã, recordando o dia em que vi a mágica ocorrer no teu olhar. Eu disse que não acreditava nos dias em que não podemos voar. Voar livremente. Não acredito, ainda, meu amor. Somos todos criaturas capazes de voar. Mas todas essas mentiras, que nos apreendem no chão, são tudo o que nos ensinam desde pequenos. Só para continuarmos pequenos demais. Tu sabes quais são essas mentiras que não podemos pronunciar. Não podemos questionar. Não somos feitos para pensar. Pensar… Voar! Naquele dia, meu amor, eu falei verdades para ti. Doeu em mim também. Mas te fiz o convite para voar comigo. Livres. E nesse instante, vi a mágica ocorrer no teu olhar. Voamos juntos, tão alto! Fomos tão longe… Mas tu não conseguistes me acompanhar no voo. As mentiras que te contaram voltaram a pesar nos teus pés. Como âncoras, te puxaram e tu voltastes ao chão. À mesmice. Ontem voltei a encarar o fundo do teu olhar e o que vi foi um profundo vazio. Dói em mim, meu amor, reconhecer que tu preferes não voar. E, por mais que te ame, prefiro a mágica da liberdade ao vazio dos pés no chão. Opto por seguir essa magia – que todos temos! – e deixo para trás as mentiras que nos aprisionam. Por isso, sigo meu voo sozinho.

amor · autoconhecimento · liberdade · paixão · sedução

Adeus de vendaval

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Panzer

Querido, cansei de suas sutilezas. Quero um companheiro mais efusivo. Vou em busca agora de viver dias mais intensos. Pois decidi que sou mulher que merece declarações de amor profundas. Versos concretos. Amor de tirar o fôlego. Sexo que seja um vendaval. Gestos diários de furacão. Sei que isso irá te surpreender, pois nunca pareci uma mulher que gostasse de um relacionamento tão escaldante. É que isso só descobri depois de viver esses anos mornos ao teu lado. E não julgo que tenha sido tempo perdido. Muito pelo contrário! Teu amor sutil, teus gestos de calmaria, teu tratamento de brisa, fizeram eu me conhecer ainda mais. Descobri essa mulher ávida por intensas loucuras amorosas. E tenho que saciá-la. Por isso, digo adeus, querido. Deixo-te com gratidão. E desejo que encontre uma mulher que seja brisa morna e estável para ti. Pois eis algo que já não sou.

cotidiano · liberdade · rotina · Sem categoria · vida

Pausa na vida

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Mysterious Connection-1 – Tarak Mahadi

De repente, todos os seus dramas diários se esvaíram. Uma completa apatia preencheu seu tanque de combustível mental. Parou na vida. Não conseguiu distinguir exatamente o que levou àquela pausa tão desnorteadora. Apenas não via qualquer sentido em se esforçar tanto naquela rotina em que estava inserido. Não sentia ânimo para continuar a melodramatizar os desafios do cotidiano. Mesmo tantos prazos correndo próximos do fim, mesmo tantas pessoas ao redor motivando-o a seguir e mais: a conseguir cada vez mais! Mesmo com tanta coisa por ocorrer, simplesmente parou. E aquele dia pareceu tão sem sentido e ao mesmo tempo tão libertador! Respirou sem pensar em nada e apenas desejou não desejar nada. Mas acabou desejando no final mais dias como aquele. Por mais pausas apáticas. Por mais tempo em que o tempo escapando pelos dedos pouco importasse. Apenas queria uma dose diária disso tudo no meio dos seus tantos dramas da vida. Talvez seria essa apatia um combustível menos prejudicial ao seu meio ambiente mental. Talvez… Ou não… Pouco se importava com isso, afinal. Pelo menos, não naquele breve momento de pausa da vida.

família · felicidade · liberdade · sociedade · sonho

Era feliz?

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Mlnchl V – Sara Morais

Perguntaram a ela se ela era feliz. Ela respondeu com um sim automático. Afinal, a vida dela tem sido tão realizadora: graduou-se, passou para um bom cargo público, teve um filho, viajou para um lugar divertido nas últimas férias… Mas quais dessas realizações são exclusivamente suas? Quais delas são sonhos inteiramente seus? Alguém insistiu. Ela não teve resposta automática para essas perguntas. Por mais que tudo o que ela tivesse feito até então fosse realizações de diversos sonhos, nenhum deles era sonho somente dela. E se não fosse seus pais, teria se formado nisso? E se não fosse seu marido, teria engravidado? E se não fosse seu filho, o destino das férias seria mesmo esse? Basta! Ela se alterou. Os outros questionamentos foram calados fora, mas não dentro da sua mente. No fundo, percebeu que toda sua vida era voltada para a realização de outras pessoas. Porém, isso não seria assim tão ruim, seria? E se sua maior realização fosse justamente realizar aquelas pessoas tão importantes? Com esse pensamento, respirou aliviada. Por fim, voltou a reprogramar na mente aquela resposta automática: sim, era feliz.

amor · liberdade · paixão

Dois iguais

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Nicholas Tolmachev

Os dois eram do mesmo signo. E do mesmo sexo. Tem gente que diz que pessoas de signos iguais não se dão bem. Também dizem isso sobre pessoas do mesmo sexo. Mas eles não se encaixavam nessas regras. É que o signo deles é o da liberdade, da sede por conhecimento, da vontade de querer mais e mais. Então não se limitavam aos ditames sociais. E os conflitos típicos de casais não iriam existir entre dois, desde que estivessem livres, se conhecessem e despertassem aquela vontade de cada vez mais. Cada beijo e abraço apertado era uma dose diária de liberdade escondida. Atos que a sociedade ditava como proibidos, mas que para eles eram libertadores. E era tal liberdade, que encontravam um no outro, que fazia aquela relação ir para frente. Quanto mais livres eram, mais presos queriam estar um ao outro. Uma prisão sem grades, cujo limite era o universo. Um universo só deles dois.

beleza · felicidade · liberdade · sociedade · vida

Maria (a)diversa

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Sem título – Ana Maria

Disseram-lhe que era bonito ter cabelo liso, então alisou. Contaram-lhe que era muito prazeroso se relacionar com homens, então se relacionou. Insistiram que o futuro era ser “doutora”, então se graduou. Mas ninguém sabia dizer ou dar palpite do porquê ela nunca se sentiu plenamente bem consigo mesma. Ainda que alisada, bem relacionada e graduada, nada parecia a completar. Então, começou a contestar todos aqueles dizeres. Adversou cada um daqueles comportamentos que teve ao longo da vida. E, sem ouvir mais opinião alheia, passou a ouvir suas próprias opiniões diversas. E se compreendeu essencialmente diversa. Voltou aos cabelos crespos vivos. Viveu relacionamentos livres com mil gêneros. Deixou de ser chamada de “Doutora” e insistiu em ser chamada pelo seu nome e sobrenome – pois aquilo era o que a identificava de verdade. Passou das adversidades de uma vida padronizada para a diversidade de sua vida livre. Viveu feliz.

amor · casamento · ego · liberdade · paixão

Lara, Aldo e o mundo

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Gaston La Touché
Lara era tão frágil. Cheia de incertezas, indecisões. O mundo ainda era um grande enigma para seus parcos anos de vida. Era jovem e assumia que não sabia de quase nada. Por isso a timidez diante do mundo. Mas uma coisa sempre teve dentro de si: muita curiosidade.
Tal retrato psicológico de Lara logo encantou bastante Aldo, um homem já tão vivido. Ele se apaixonou pelas fraquezas dela. Sentiu ânsia de a proteger do mundo pelo resto da vida. Logo, empreendeu no desafio de a conquistar para si. E ela se deixou conquistar, mesmo com receio, mas motivada por pura curiosidade. Então, conquistada, passou a ser mulher superprotegida pelo homem. Aldo, antes cheio de boas intenções, passou a nutrir um grave sentimento possessivo. Queria limitar toda e qualquer forma de Lara se fortalecer, se descobrir. Queria substituir a noção de mundo na cabeça dela pela noção de viver completamente voltada para ele. Queria ser o único e exclusivo universo daquela mulher. Mas mal sabia ele que não se apaga o mundo diante dos olhos dos curiosos. E que curiosidade é o primeiro ingrediente para a porção de fortalecimento que toda pessoa precisa para superar seus próprios receios. E esse ingrediente, Lara tinha em boas doses. Logo, tudo era apenas uma questão de tempo. Mais dias, menos dias… Ela iria descobrir o mundo. Iria se descobrir.