história · sociedade

Criador

criador
André Pessoa

Pela primeira vez, sentiu o peso da responsabilidade pelo o que escrevia. As crianças choravam assustadas. O assombro também passava pelos olhos dos adultos, dos mais fortes aos mais fracos. A comunidade o encarava perplexa. Seus relatos escritos em linguagem desenhada apontavam pra existência de um “espírito guardião” da região que acabam de invadir. Por isso aquelas tempestades intermináveis. Ou todos confiavam nele, escritor, ou não haveria como negociar permanência pacífica. Ele escreveu aquela história da sua própria imaginação. Não contava com a crença dos que viviam com ele. Acabou eleito líder espiritual, porque era o único que dominava tão bem a arte de escrita e narração. Na verdade, sua maior capacidade era a da criação. Capaz de negociar o fim das tempestades, ele não era. Compreendeu que escrever e falar o que não existe é dar vida através de palavras. E vida é algo mais poderoso do que imaginava. Principalmente quando se é dada a algo que não morre. Por isso, o peso da responsabilidade que criou para si. Mas junto com maiores responsabilidades, sempre vem muito poder. E logo esse arcaico escritor perceberia o tamanho desse poder criado e encararia sua nova função com gosto. Tal gosto que seria passado por gerações e mais gerações de líderes. Criativos seres poderosos.

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Chave das recordações

chave
An Invitation to the Intimate – Paul Bond

Um dia, organizando a imensidão de coisas que havia na sua casa, acabou encontrando uma velha chave. A porta que essa chave abria pertencia a um lugar distante, onde ela teve a sorte de um dia viver. Deixou esse lugar para trás, afinal não pertencia a ele. Levou a chave sem querer. Mas nesse dia, anos depois, após encontrar essa chave, a porta que abriu foi a da nostalgia. Uma porta que não costumava abrir. Mas que, naquela tarde de domingo, resolveu deixar escancarada para que todas as lembranças pudessem fazê-la companhia. Agradeceu por poder ter recordações como aquelas. E compreendeu, por fim, que as pessoas podem não pertencer a lugares ou a outras pessoas, mas uma coisa pertence a elas: suas próprias histórias. E que sorte a dela sentir-se tão bem acompanhada com a sua história! Sentir-se plena consigo mesma! E foi essa plenitude que viveu naquela tarde de domingo.

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A espera de união

uniao
Life in the city – Charles Nkomo

Naquela data festiva, a ordem era se agregar às pessoas queridas e comemorar o nascimento de um ser iluminado que veio diante da humanidade pregar o sentimento que representa pura união. Naquela data, porém, havia tantas pessoas que não podiam estar unidas, por circunstâncias da vida, por escolhas próprias ou situações não queridas. Muitos amores separados, sem querer. Muitas famílias espalhadas pelo mundo, pro bem ou pro mal. Muitas fronteiras geográficas a dividir amigos. E mesmo algumas fronteiras geopolíticas a impedir que famílias unidas pudessem comemorar, apenas a suplicar. Naquela data, às vezes o que mais se espera é o que menos se pode ter. União, amor, um abraço tranquilo, um prato cheio. Porém o mais incrível dessa data é que, mesmo não sendo tão festiva assim, faz algumas dessas muitas pessoas sentirem uma ponta de esperança. Esse sentimento que aquece e faz companhia. Que move essas pessoas para os próximos dias com a crença de que poderão comemorar as próximas datas festivas com verdadeira união.

família · história

História real

The page of time – Shiori Matsumoto
A pequena princesa passava dentro de um carro blindado e discreto, para não chamar atenção. Observava as tantas pessoas que por ali circulavam, tiravam fotos, exaltando aqueles monumentos. Sabia que aqueles prédios ornamentados e aquelas artes monumentais, espalhados pela cidade e tão famosos no mundo inteiro, foram erguidos e projetados em homenagem aos seus antepassados da realeza a que pertencia. Eram presentes e honrarias conseguidos graças às riquezas dos antepassados da maioria daqueles tantos turistas. Sabia que houve muita exploração para que a sua cidade fosse tão brilhante e encantadora como hoje o mundo a considerava. E, apesar disso, lá estavam todos aqueles turistas apreciando, aplaudindo e rindo diante desses monumentos da sua família real. Esse fato ela sempre observava, mas nunca conseguia compreender. Ela não encontrava lógica na história. História essa a que ela, sem querer, pertencia.