guerra · história · realidade · Sem categoria · sociedade

A espera de união

uniao
Life in the city – Charles Nkomo

Naquela data festiva, a ordem era se agregar às pessoas queridas e comemorar o nascimento de um ser iluminado que veio diante da humanidade pregar o sentimento que representa pura união. Naquela data, porém, havia tantas pessoas que não podiam estar unidas, por circunstâncias da vida, por escolhas próprias ou situações não queridas. Muitos amores separados, sem querer. Muitas famílias espalhadas pelo mundo, pro bem ou pro mal. Muitas fronteiras geográficas a dividir amigos. E mesmo algumas fronteiras geopolíticas a impedir que famílias unidas pudessem comemorar, apenas a suplicar. Naquela data, às vezes o que mais se espera é o que menos se pode ter. União, amor, um abraço tranquilo, um prato cheio. Porém o mais incrível dessa data é que, mesmo não sendo tão festiva assim, faz algumas dessas muitas pessoas sentirem uma ponta de esperança. Esse sentimento que aquece e faz companhia. Que move essas pessoas para os próximos dias com a crença de que poderão comemorar as próximas datas festivas com verdadeira união.

guerra · infância · morte · sociedade

Entre tiros

Guns – Andy Warhol
Som de tiro. Não só um. Muitos tiros. Para seus ouvidos, não era barulho. Era som, como dos passarinhos na primavera. Mas diferentes dos passarinhos – que só apareciam na primavera – os tiros não tinham estação. Eram sempre presentes. E nunca tivera medo disso. Não até ouvir aqueles tiros. Não eram tiros das armas do pai. Sabia disso. E soube da pior forma. Sangue. No chão da sua casa, havia muito sangue. Descobriu o corpo do pai morto na sala. De súbito, acordou. Aquela lembrança novamente durante o sono. O homem levantou, lavou o rosto para afastar aquela memória. Lembrou as palavras do homem que matou seu pai: “menino, não se preocupe, agora vamos te levar para um país melhor e terá uma educação melhor. Não precisará viver entre tiros”. Diante do espelho, ele encarou seu próprio riso. Muito enganado. Apesar do seu passado renegado, com seus pais talibãs mortos, após ser supostamente acolhido por outra nação, educado e formado, agora era policial. E escolhera aquela profissão só para continuar vivendo entre tiros. Porque ele foi criado assim. Porque aqueles foram os valores ensinados por seus pais. E sairia para mais um dia de trabalho. Para atirar. Porque aquele era o som da sua vida.
guerra · infância

Criança em fagulhas

 

Young black child – Maria Saldarriaga
 
Fogos explodindo acima da sua cabeça. Gritos que não diziam palavras, apenas gritavam. Ouvidos congestionados. Visão embaçada pelas lágrimas. Profundo desamparo, não sabia para onde correr, nem quem seguir. Não sentia mais as mãos dos seus pais lhe protegendo. Uma noite tremendamente escura que não parecia nunca acabar…
A criança afegã acordou assustada do pesadelo. O quarto do orfanato estava sendo iluminado por fogos de artifício que explodiam no céu lá fora. Não tinha seus pais ao seu lado, apenas algumas cobertas. O pesadelo que acabara de ter nada mais era do que as lembranças de um ano de guerra constante no seu país. Agora, a criança assistia à turbulência de um país diferente comemorando a chegada de um novo ano. Comemoração que trazia tanto as lembranças terríveis como a esperança – esta última coisa ainda tão pouco compreendida.
amor · guerra

Em tempos de guerra

Summer interior – Edward Hopper
 
A insônia dormia junto com ela novamente. A cidade estava calada. A sua rua, vazia. Os seus olhos despertos fixavam-se no teto. Cansara das orações, dos pedidos, súplicas afogadas em lágrimas. Olhou para o relógio no criado-mudo: 04:43. Naquela hora seu filho, seu marido e seu amante estariam em solo inimigo. A guerra já estava no seu vigésimo terceiro dia, cada vez mais banhada em sangue. A estratégia dessa madrugada fora anunciada no telejornal das oito. Ficara assombrada. Seus amores guerreavam, obrigados. Os três deixaram para trás ela, sozinha, com o coração na mão. Cada dia aumentava a falta do amor filial, do amor companheiro de seu marido e do amor ardente do seu amante.
Olhando o teto branco do seu quarto, insistiu na súplica: que a guerra acabasse e que os três homens da sua vida voltassem, ou ela mesma morreria.