amor · casamento · feminismo · força · paixão · sofrimento

Por força, da força

magritte
René Magritte

Ela se apaixonou pela força dele. Entregou-se sem saber que o relacionamento a levaria a força para anos de uma vida nunca desejada. Ao longo desses anos, descobriu que a força dele era tamanha também nas imposições de como ela devia se comportar. No tom de voz aumentado quando algum desentendimento surgia. No jeito de olhar a repreendendo em público. E entre quatro paredes,na força do sexo em horas indesejadas. Mas, aos poucos, ela ia percebendo que essa força revelava uma fraqueza descomunal existente naquele homem. Foi se descobrindo mais forte que ele, dia após dia. Sentia-se mais forte que ele quando separava sua vida pessoal da profissional e, apesar dos problemas, conquistava cada vez mais espaço mundo afora. E os méritos alcançados lá fora não a impedia de manter tudo organizado dentro de casa. Tornou-se mais forte que ele, quando começou a questionar as imposições e comportamentos daquele homem fraco. E tomou toda a força que restava nele para si, quando acabou com o relacionamento e se libertou, sem medo, para continuar a viver do seu próprio jeito forte de ser.

casamento · força · medo · sofrimento · violência

Reflexos de uma dor

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Victoria – Richard Scott

O punho ainda estava dolorido. Mas aquela dor não era nada perto do forte aperto que carregava no peito. Passou o dia inteiro sem coragem de se encarar nos espelhos da casa. O reflexo de mulher forte, que ela vestia todos os dias, certamente naquela manhã devia ter amanhecido menos convincente. Não sabia se os outros que encontraria ao longo do dia notariam isso. Mas ela sentia isso e sabia que sentir era mais triste do que transparecer. Nunca pensou que o homem que chamava de amor um dia a deixaria com aquele aperto no peito. Com aquela dor no punho. Com aquele sentimento de que já não é mulher forte o bastante para viver. O que vivera noite passada foi claramente violência doméstica. Mas nunca imaginou que seria ela mais uma mulher nas estatísticas… Ou melhor, não seria. Porque não tinha força pra falar, denunciar, expor aquilo que viveu. E isso só a machucava mais. Só afastava mais a lembrança de que, até ontem, era uma mulher forte, bem resolvida, com controle sobre si. Mas algo ali dentro ainda insistia em lembrar dessa mulher que foi. E, meio ao vazio existencial pós violência, conseguia esperançar sobre um dia enfrentar aquele suposto amor, encarar a realidade e olhar seu reflexo com coragem de novo. Quem sabe, um dia. 

autoconhecimento · defeitos · família · força

Um ser forte

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Small Portrait – Kay Sage

“Não sou forte o bastante para mudar”. Confessou. As lágrimas já serviram de demaquilante há meia hora de choro antes da confissão. O rosto despido, mostrava aquilo que ela lutava tanto para esconder: fraqueza. De onde vinha, da forma como foi criada e dentre as pessoas que vivia, ser fraco era vergonhoso. Seja homem ou mulher, tinha que ser forte para tudo. Mas a vida acabava de lhe colocar num fogo cruzado. Diante daquelas pessoas, que chamava de família, depois de muito lutar, teve que baixar as armas e deixou exposta sua ferida que há tanto sangrava. Era fraca. Não conseguia mudar. Não tinha essa força toda que parecia ter. Porém, depois de confessar sua fraqueza, de pensar que ali havia perdido a batalha, sentiu na ombro a mão pesada do comandante. A voz do seu pai nunca pareceu tão certa: “acabo de presenciar uma demonstração de força que nunca havia visto antes. Levanta-te, filha, continua tua batalha no conforto daquilo que és, contra os desafios que surgirem para tentar te impedir de continuar a ser”. E ali aceitaram quem ela era. Ali ela aprendeu sobre o que faz uma pessoa guerreira. Afinal quem é forte o suficiente para reconhecer e demonstrar suas fraquezas?