amor · autoconhecimento · felicidade · liberdade

Entre magia e mentiras

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Meghan Howland

Acordei tão cedo essa manhã, recordando o dia em que vi a mágica ocorrer no teu olhar. Eu disse que não acreditava nos dias em que não podemos voar. Voar livremente. Não acredito, ainda, meu amor. Somos todos criaturas capazes de voar. Mas todas essas mentiras, que nos apreendem no chão, são tudo o que nos ensinam desde pequenos. Só para continuarmos pequenos demais. Tu sabes quais são essas mentiras que não podemos pronunciar. Não podemos questionar. Não somos feitos para pensar. Pensar… Voar! Naquele dia, meu amor, eu falei verdades para ti. Doeu em mim também. Mas te fiz o convite para voar comigo. Livres. E nesse instante, vi a mágica ocorrer no teu olhar. Voamos juntos, tão alto! Fomos tão longe… Mas tu não conseguistes me acompanhar no voo. As mentiras que te contaram voltaram a pesar nos teus pés. Como âncoras, te puxaram e tu voltastes ao chão. À mesmice. Ontem voltei a encarar o fundo do teu olhar e o que vi foi um profundo vazio. Dói em mim, meu amor, reconhecer que tu preferes não voar. E, por mais que te ame, prefiro a mágica da liberdade ao vazio dos pés no chão. Opto por seguir essa magia – que todos temos! – e deixo para trás as mentiras que nos aprisionam. Por isso, sigo meu voo sozinho.

aprendizado · autoconhecimento · ego · felicidade · vida

Vertigem do ser

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Meditation –  Patrick Whelan

Aventurou-se em se conhecer por inteiro. Passou os dedos pela pele do seu próprio braço e terminou se abraçando. Depois de tanto tempo se dedicando para sua auto compreensão, descobriu-se como um precipício. Entendeu porque causava vertigem aquela aventura de se entender de verdade. Aquele frio na barriga, aquela sensação de uma pena deslizar nas palmas dos pés descalços e aquele arrepio na espinha dorsal: eram todos sinais daquela insana tentativa de contato com o seu mais íntimo ser. E quão íntimo ela conseguiu atingir! Sorria, boquiaberta. Estar de olhos fechados para o mundo agora era estar de olhos bem abertos para o universo que era o seu eu. Mas isso tudo não era egoísmo, não. Na verdade, somente após se compreender universo, é que ela compreendeu que, em essência, todos eram universos. Não dava para menosprezar, discriminar, ignorar pessoas que são tanto! São todos precipícios, que poucos se aventuram a mergulhar. Mesmo aquelas pessoas, que parecem ser superficiais, não se resumem a uma planície existencial. Cada um carrega dentro de si universos inteiros. E essa verdade tinha acabado de descobrir em mais uma meditação, essa vertiginosa aventura em que se envolveu.

família · felicidade · liberdade · sociedade · sonho

Era feliz?

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Mlnchl V – Sara Morais

Perguntaram a ela se ela era feliz. Ela respondeu com um sim automático. Afinal, a vida dela tem sido tão realizadora: graduou-se, passou para um bom cargo público, teve um filho, viajou para um lugar divertido nas últimas férias… Mas quais dessas realizações são exclusivamente suas? Quais delas são sonhos inteiramente seus? Alguém insistiu. Ela não teve resposta automática para essas perguntas. Por mais que tudo o que ela tivesse feito até então fosse realizações de diversos sonhos, nenhum deles era sonho somente dela. E se não fosse seus pais, teria se formado nisso? E se não fosse seu marido, teria engravidado? E se não fosse seu filho, o destino das férias seria mesmo esse? Basta! Ela se alterou. Os outros questionamentos foram calados fora, mas não dentro da sua mente. No fundo, percebeu que toda sua vida era voltada para a realização de outras pessoas. Porém, isso não seria assim tão ruim, seria? E se sua maior realização fosse justamente realizar aquelas pessoas tão importantes? Com esse pensamento, respirou aliviada. Por fim, voltou a reprogramar na mente aquela resposta automática: sim, era feliz.

beleza · felicidade · liberdade · sociedade · vida

Maria (a)diversa

maria adversa
Sem título – Ana Maria

Disseram-lhe que era bonito ter cabelo liso, então alisou. Contaram-lhe que era muito prazeroso se relacionar com homens, então se relacionou. Insistiram que o futuro era ser “doutora”, então se graduou. Mas ninguém sabia dizer ou dar palpite do porquê ela nunca se sentiu plenamente bem consigo mesma. Ainda que alisada, bem relacionada e graduada, nada parecia a completar. Então, começou a contestar todos aqueles dizeres. Adversou cada um daqueles comportamentos que teve ao longo da vida. E, sem ouvir mais opinião alheia, passou a ouvir suas próprias opiniões diversas. E se compreendeu essencialmente diversa. Voltou aos cabelos crespos vivos. Viveu relacionamentos livres com mil gêneros. Deixou de ser chamada de “Doutora” e insistiu em ser chamada pelo seu nome e sobrenome – pois aquilo era o que a identificava de verdade. Passou das adversidades de uma vida padronizada para a diversidade de sua vida livre. Viveu feliz.

carnaval · felicidade · festa · realidade · sociedade · vida

Máscaras de Carnaval

Carnaval nos 4 cantos de Olinda – Olivia Castro Cranwell
Batucada retumbando. Chão tremendo quase na mesma frequência que os quadris das meninas. O ritmo carnavalesco num compasso rápido, tão rápido quanto os relacionamentos que ali se formavam e se desformavam. Um garrafa de cerveja se desfaz no chão, lançando seus cacos entre os confetes. Vidros que servirão de armadilhas pra aqueles seres dançantes desatentos. Mas ninguém estava preocupado com a possibilidade de se ferir. Ou em ferir os outros. Estavam todos feridos por dentro já. Vinham todos de um ano de trabalho árduo. De impostos roubados dos seus bolsos. De amores que não sobreviviam até o próximo carnaval. De insegurança pública que mata. E outras tantas feridas particulares. Eram soldados sobreviventes, diante de uma semana de folga das batalhas. Diante das ilusões, máscaras e fantasias do carnaval.
dança · felicidade

Dançarina

Cheryl Naked – Romero Britto
Ela sambava, requebrava e sambava. E não sabia se estava realmente sambando. Parecia estar pulando. Mas fechava os olhos, soltando o gingado. Sentia a energia extravasar por todo o corpo. E ofegava, mas sorria para parecer bonita. Era aquele seu sorriso o mais sincero. Os músculos do rosto esticados, os músculos das pernas pulsando. E descia até o chão e desequilibrava. Porém aquela falta de equilíbrio era só um toque na coreografia, que logo ia completando com um giro e outro rebolado. Até cair na cama e abrir os olhos para o teto. O peito arfando de cansaço, mas de prazer. Dançava sem se preocupar com julgamento de nenhum público. O seu quarto era o local de seu espetáculo diário. E solitário.
felicidade · morte · vida

Sua perfeita escolha

Suicide – Amber Christian Osterhout
Uma bela casa, carro, emprego. Uma família unida, pais fiéis e dedicados ao extremo. Formou-se na melhor faculdade, no curso mais promissor. Ao seu lado, a mais bela das mulheres. Tinha saúde física, amigos, ótima condição financeira. O mundo parecia estar aos seus pés. Sua vida era perfeita aos olhos de todos. Vivia tudo aquilo que sonharam para ele, mas nada que ele havia escolhido. Quando fez sua primeira escolha, o estômago embrulhou, as lágrimas escorreram, não conseguia respirar e o coração acelerou… Até parar. O sorriso que restou estampado no seu rosto foi o único e verdadeiro pela primeira e última vez. Tornou-se o homem mais feliz do mundo naquele breve momento de adeus.
Em parceria com Raphael Craveiro.