família · preconceito

Vaidade escondida

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Fatima Ronquillo

O cheiro de esmalte afagava sua tristeza. Era madrugada, todos da casa dormiam. Antes de ir dormir, escondida no banheiro do seu quarto, pegou o esmalte que comprou na farmácia perto da escola, dizendo que seria para sua mãe, e foi pintar as unhas das mãos. Delicadamente pintadas, ficava horas admirando aquelas lindas unhas que tinha. Queria mantê-las com aquela cor, mas não podia. O relógio marcava 2 horas da manhã, pegou a acetona e fez todo o ritual para tirar os esmaltes antes de dormir. Por vezes, era para tirar maquiagem do rosto. Cosméticos esses comprados e jogados fora, longe de casa, após toda noite em que ela fazia aquilo escondida. Porque na verdade a menina vaidosa, que tinha dentro de si, estava num corpo chamado Pedro. Tinha entre as pernas um órgão masculino que não sentia ser seu. Acordava todas as manhãs como um menino para a família, para a escola e para toda a sociedade. E passava todos aqueles anos ali dentro se questionando até quando teria que viver escondida. Porque não tem vaidade no mundo que maqueie aquela tristeza que vivia.

família · infância · maternidade · pai

Tecido amor

tecido
Eve ou L’amour en Blanc – István Sándorfi

Sente aqui, deixa eu te contar uma coisa. Eu amei sua mãe. Loucamente. Anos inteiros, me desfiz e me fiz de amor por ela. Como uma máquina de tecer um casaco de lã macio. Feito pra proteger a pele do frio. Era mais ou menos assim meu trabalho de amor por sua mãe. Mas acabou a lã. E a máquina hoje pinça o tecido sem construir o casaco. Apenas pinça e aos poucos forma um buraco que deixará o frio passar. Já não servirá ao propósito de proteger a pele. Por isso resolvemos parar a máquina. Senão o buraco ficará maior. E algumas coisas não podemos deixar crescer. Como desgosto, decepção, frieza, desconfiança, raiva e intrigas. Como esse buraco no casaco de lã. Não pode aumentar. Esse casaco é a nossa família. Essa máquina é nosso casamento. A lã, nosso amor. Na falta da lã, resolvemos parar a máquina, para não acabar com o que já foi costurado com tanto zelo, nosso casaco. Nossa família, feita para nossa proteção. Por isso, nos separamos, como casal, mas seremos sempre a pele que esse casaco irá proteger. Junto com você, minha filha

família · infância · realidade · vida

Revelação

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Sophia – Christos Tsimaris

Nada é para sempre. Aquela frase e seu significado tão pesado chegou à compreensão da menina numa noite qualquer, antes de dormir. De repente ela imaginou que ela não teria seus pais para sempre. Não teria a mesma casa. Os mesmos amigos. E que o príncipe encantado talvez não seja o pai dos seus filhos ou o marido presente até sua velhice. Talvez na velhice, não reste mais nada nem ninguém além dela mesma. E pior… Talvez, nos últimos instantes da sua pequena vida ela perceba que nem ela era suficiente para preencher aquele espaço chamado de “para sempre”. E aquilo foi extremamente assustador, de início. Mas como nada é para sempre, logo após adormecer, toda essa revelação se esvairia e a pequena menina amanheceria no outro dia sem se preocupar com o que era para sempre ou não. Ao menos, por enquanto.

autoconhecimento · defeitos · família · força

Um ser forte

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Small Portrait – Kay Sage

“Não sou forte o bastante para mudar”. Confessou. As lágrimas já serviram de demaquilante há meia hora de choro antes da confissão. O rosto despido, mostrava aquilo que ela lutava tanto para esconder: fraqueza. De onde vinha, da forma como foi criada e dentre as pessoas que vivia, ser fraco era vergonhoso. Seja homem ou mulher, tinha que ser forte para tudo. Mas a vida acabava de lhe colocar num fogo cruzado. Diante daquelas pessoas, que chamava de família, depois de muito lutar, teve que baixar as armas e deixou exposta sua ferida que há tanto sangrava. Era fraca. Não conseguia mudar. Não tinha essa força toda que parecia ter. Porém, depois de confessar sua fraqueza, de pensar que ali havia perdido a batalha, sentiu na ombro a mão pesada do comandante. A voz do seu pai nunca pareceu tão certa: “acabo de presenciar uma demonstração de força que nunca havia visto antes. Levanta-te, filha, continua tua batalha no conforto daquilo que és, contra os desafios que surgirem para tentar te impedir de continuar a ser”. E ali aceitaram quem ela era. Ali ela aprendeu sobre o que faz uma pessoa guerreira. Afinal quem é forte o suficiente para reconhecer e demonstrar suas fraquezas?

família · felicidade · liberdade · sociedade · sonho

Era feliz?

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Mlnchl V – Sara Morais

Perguntaram a ela se ela era feliz. Ela respondeu com um sim automático. Afinal, a vida dela tem sido tão realizadora: graduou-se, passou para um bom cargo público, teve um filho, viajou para um lugar divertido nas últimas férias… Mas quais dessas realizações são exclusivamente suas? Quais delas são sonhos inteiramente seus? Alguém insistiu. Ela não teve resposta automática para essas perguntas. Por mais que tudo o que ela tivesse feito até então fosse realizações de diversos sonhos, nenhum deles era sonho somente dela. E se não fosse seus pais, teria se formado nisso? E se não fosse seu marido, teria engravidado? E se não fosse seu filho, o destino das férias seria mesmo esse? Basta! Ela se alterou. Os outros questionamentos foram calados fora, mas não dentro da sua mente. No fundo, percebeu que toda sua vida era voltada para a realização de outras pessoas. Porém, isso não seria assim tão ruim, seria? E se sua maior realização fosse justamente realizar aquelas pessoas tão importantes? Com esse pensamento, respirou aliviada. Por fim, voltou a reprogramar na mente aquela resposta automática: sim, era feliz.

família · liberdade · maternidade

Enlaçados

The crack up – Charles Blackman

Alguns laços nunca desatam. Ela compreendeu isso depois de deixar o filho na porta da casa do pai. O homem olhou-a nos olhos e demorou-se. Ela também demorou ali naquele olhar. E naquela fração de segundos, toda a história deles passou como um clarão de um raio na memória. Mas depois da luz, veio o estrondo forte do término. Das brigas, desentendimentos, descompassos. Não conseguiram mais seguir seus planos juntos. Divorciaram-se. Porém alguns laços nunca desatam. E o filho era aquele nó. Não adiantava ela ou ele tentar puxar o filho só para si. O nó apertaria mais e nó apertado dói. Cada um deles teria que viver com o outro, mesmo separados, mas mantendo aquele laço firme, sem deixar desatar, tampouco arrebentar. Somente com o passar dos anos, depois que mãe e pai fizessem cada um seu papel, é que esse nó aos poucos irá afrouxar. Não se partir por completo, apenas desapertar. E, assim, deixar cada um seguir – enlaçados, porém livres.

cotidiano · família · rotina · sociedade

Solidão acompanhada

Supper Time – Horace Pippin
– Como foi seu dia, filha? – Foi bom. Normal. E o seu, pai? – Trabalhando muito. Ambos olharam para a mãe, dona de casa. Não perguntaram a ela como foi seu dia, pois já sabiam que nada demais teria ocorrido por ali, já que nada demais ocorria na vida deles – que saíam de casa, entravam em contato com todo tipo de gente e situações diversas – como que seria diferente ali dentro daquela casa? E não era diferente, de fato. Ao final do jantar – que era uma repetição do almoço – pai e filha se dirigiam aos seus quartos. Davam boa noite. Fingiam educação. Fingiam se importar com que a noite do outro fosse boa. E a mãe – que ficava para trás, para limpar a sujeira e organizar a bagunça – observava todo aquele fingimento automático da rotina. Observava que, ao fecharem suas portas, eles mergulhavam nas suas solidões. E seguiam assim: sozinhos, porém acompanhados. Em quartos vizinhos. Em uma vida compartilhada. Que quase sempre não levava a nada.