cotidiano · ego · pobreza · realidade · sociedade

Vitrines de desejos

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Paul Klee

Meu sonho é ter dinheiro para comprar essa bolsa, mas a vida está tão difícil! – uma moça argumentou com a amiga, paradas em frente a uma vitrine de bolsas e roupas caras. Logo ali perto, um mendigo sentado no chão, próximo a uma lanchonete, encarava a vitrine de salgados sendo reposta pelo funcionário. No papelão ao seus pés, a súplica escrita – me ajudem, estou com fome, a vida está tão difícil. Desviando do mendigo, passou o jovem com os olhos vidrados no celular. Observava o aplicativo de celular como uma vitrine de meninas próximas dele, mas nenhum “match” alcançado. Talvez ele também pensasse que “a vida está tão difícil”.
Cada pessoa tem a sua vitrine dos desejos. Vitrines que doem no ego e outras que doem no estômago mesmo. Dores específicas de cada um com sua vida tão difícil.

aprendizado · ego · realidade · vida

Sempres

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Secrets – Douglas Hale

Marília sempre acordava depois das nove e dizia que madrugar era para os bestas. Até que acabou grávida e sua pequena a fazia de besta das cinco da manhã em diante. Rodrigo sempre corria muito, fosse caminhando ou dirigindo, não suportava as baixas e médias velocidades, pois dizia que era perder muito tempo. Até que chegou aos seus 50 e tantos anos e um problema da “gota serena” o fez aprender a perder tempo e dar os passos mais curtos e demorados que os outros ao redor. Antônio sempre dizia que preferia morrer a ter que ficar prostrado em uma cama de hospital. Até que um derrame cerebral deixou metade do seu corpo sem os movimentos e ele sentiu que morrer não era a melhor escolha para realizar o sonho de ver crescer seus filhos, ainda tão necessitados do pai. Assim como eles, outros tantos indivíduos continuam por aí afirmando outros “sempres”. Até que algo surja e os modifique. Afinal, eis sempre o que a vida faz.

aprendizado · autoconhecimento · ego · felicidade · vida

Vertigem do ser

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Meditation –  Patrick Whelan

Aventurou-se em se conhecer por inteiro. Passou os dedos pela pele do seu próprio braço e terminou se abraçando. Depois de tanto tempo se dedicando para sua auto compreensão, descobriu-se como um precipício. Entendeu porque causava vertigem aquela aventura de se entender de verdade. Aquele frio na barriga, aquela sensação de uma pena deslizar nas palmas dos pés descalços e aquele arrepio na espinha dorsal: eram todos sinais daquela insana tentativa de contato com o seu mais íntimo ser. E quão íntimo ela conseguiu atingir! Sorria, boquiaberta. Estar de olhos fechados para o mundo agora era estar de olhos bem abertos para o universo que era o seu eu. Mas isso tudo não era egoísmo, não. Na verdade, somente após se compreender universo, é que ela compreendeu que, em essência, todos eram universos. Não dava para menosprezar, discriminar, ignorar pessoas que são tanto! São todos precipícios, que poucos se aventuram a mergulhar. Mesmo aquelas pessoas, que parecem ser superficiais, não se resumem a uma planície existencial. Cada um carrega dentro de si universos inteiros. E essa verdade tinha acabado de descobrir em mais uma meditação, essa vertiginosa aventura em que se envolveu.

amor · casamento · ego · liberdade · paixão

Lara, Aldo e o mundo

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Gaston La Touché
Lara era tão frágil. Cheia de incertezas, indecisões. O mundo ainda era um grande enigma para seus parcos anos de vida. Era jovem e assumia que não sabia de quase nada. Por isso a timidez diante do mundo. Mas uma coisa sempre teve dentro de si: muita curiosidade.
Tal retrato psicológico de Lara logo encantou bastante Aldo, um homem já tão vivido. Ele se apaixonou pelas fraquezas dela. Sentiu ânsia de a proteger do mundo pelo resto da vida. Logo, empreendeu no desafio de a conquistar para si. E ela se deixou conquistar, mesmo com receio, mas motivada por pura curiosidade. Então, conquistada, passou a ser mulher superprotegida pelo homem. Aldo, antes cheio de boas intenções, passou a nutrir um grave sentimento possessivo. Queria limitar toda e qualquer forma de Lara se fortalecer, se descobrir. Queria substituir a noção de mundo na cabeça dela pela noção de viver completamente voltada para ele. Queria ser o único e exclusivo universo daquela mulher. Mas mal sabia ele que não se apaga o mundo diante dos olhos dos curiosos. E que curiosidade é o primeiro ingrediente para a porção de fortalecimento que toda pessoa precisa para superar seus próprios receios. E esse ingrediente, Lara tinha em boas doses. Logo, tudo era apenas uma questão de tempo. Mais dias, menos dias… Ela iria descobrir o mundo. Iria se descobrir.