beleza · defeitos · sociedade

Indignadas

dorothea
Voltage – Dorothea Tanning

“Vim para resgatar minha dignidade”. Ouvia aquilo de quase todas as mulheres que atendia no salão de beleza. Ela, com todo profissionalismo que possuía, sorria em retorno àquele comentário e desenvolvia a sua arte de manicura e pedicure com desenvoltura. Porém, esse tipo de comentário nunca a deixava em paz. Uma inquietude se instalava ali dentro de sua cabeça e a fazia se questionar sobre aquela tal “dignidade” que as mulheres diziam ter ou não com base em unhas feitas e pintadas, ou cabelos tingidos e escovados, ou sobrancelhas desenhadas e por aí vai. Que tipo de dignidade era essa que só se resgatava em salão de beleza? Que tipo de mulheres “dignas” insistíamos em ser e incentivar com base nesses critérios superficiais? Aquilo a deixava indignada! E ao mesmo tempo que notava tal indignação, sorria de si mesma… Olhava suas unhas sem esmaltes, seu cabelo natural e concluía: tem razão eu estar “indignada” mesmo! E isso não a incomodava, preferia a falta dessa dignidade superficial. No fundo havia uma semelhança entre ela e aquele grupo de mulheres: todas encontravam dignidade num salão de beleza. Ela, por meio de seu trabalho que amava fazer. Elas, por meio do resultado do trabalho daquela. E, assim, cada uma seguia com a dignidade que achavam merecer.

defeitos · depressão · rotina · sociedade · sofrimento

Condenação

scott
Before the after – Scott Hutchison

Era mais uma condenada a viver surtos de infelicidade. Isso porque não fazia o que amava. Não sabia nem o que seria isso que a faria amar sua rotina. Mas aceitou um caminho que parecia muito conveniente para os outros, porém tão desestimulante para ela. Na falta do que a estimular, construiu sua rotina sobre essas bases convencionais. E por isso era mais uma dessas pessoas condenadas a lamentar o dia a dia, a lastimar o amanhecer de cada nova semana, a reclamar das horas que não passam até o final do expediente e a sentir-se aliviada por chegar viva em casa no final do dia, porém, tão suficientemente amarga, que contagiaria com tal gosto a vida dos que a rodeava. E enquanto ela não movesse seus intentos na busca do que seria sua razão de viver, pagaria essa pena. Uma pena que não era exclusividade dela. Pelo contrário, ela era só mais uma naquele presídio de condenados à infelicidade profissional

autoconhecimento · defeitos · família · força

Um ser forte

sage
Small Portrait – Kay Sage

“Não sou forte o bastante para mudar”. Confessou. As lágrimas já serviram de demaquilante há meia hora de choro antes da confissão. O rosto despido, mostrava aquilo que ela lutava tanto para esconder: fraqueza. De onde vinha, da forma como foi criada e dentre as pessoas que vivia, ser fraco era vergonhoso. Seja homem ou mulher, tinha que ser forte para tudo. Mas a vida acabava de lhe colocar num fogo cruzado. Diante daquelas pessoas, que chamava de família, depois de muito lutar, teve que baixar as armas e deixou exposta sua ferida que há tanto sangrava. Era fraca. Não conseguia mudar. Não tinha essa força toda que parecia ter. Porém, depois de confessar sua fraqueza, de pensar que ali havia perdido a batalha, sentiu na ombro a mão pesada do comandante. A voz do seu pai nunca pareceu tão certa: “acabo de presenciar uma demonstração de força que nunca havia visto antes. Levanta-te, filha, continua tua batalha no conforto daquilo que és, contra os desafios que surgirem para tentar te impedir de continuar a ser”. E ali aceitaram quem ela era. Ali ela aprendeu sobre o que faz uma pessoa guerreira. Afinal quem é forte o suficiente para reconhecer e demonstrar suas fraquezas?

defeitos · depressão · sociedade

Uma conversa de si para si

conversa
Who am I? – Lynn Yoder

Encarou a imagem daquela mulher no espelho. Pensou em todas as vezes em que só restava ela mesma na frente de um espelho repetindo para si suas próprias qualidades. Quando ninguém mais enxergava o bom que havia nela e apenas apontavam seus defeitos e a criticavam por cada passo que dava. E se nesse momento ela tivesse desistido de repetir o que há de bom em si para si? Se passasse a pensar somente nas críticas que os outros faziam? Passaria ela a não ser mais aquela pessoa boa que era? Tornaria-se a pior pessoa que os outros tanto diziam ser? Respirou fundo, olhando profundamente nos olhos daquela imagem e falou em alto e bom tom: não! A resposta é não! Não importa o quanto os outros falem mal de você. Não importa o quanto você mesma acredite nesses males. E o quão profunda esteja sua depressão por não acreditar em si mesma. Nunca a pessoa boa e cheia de qualidades que há aí dentro irá deixar de existir. Falta só você olhar para esse lado, voltar-se para si. Buscar o melhor de si. Para si.

defeitos · morte · saúde · sofrimento · tristeza · vida

Colecionadora de perdas

colecionadora
The Physician (detail) –  Christina Ridgeway

Você não tem coração. Foi o grito quase cuspido na sua cara. Ela não se importaria com isso se fosse qualquer outro dia. Mas aquele era o começo de um plantão e já teve três pacientes falecidos. E ali na sua frente, uma mãe chorando em prantos, a culpava pela morte do filho. Ela era médica de urgência há tantos anos. No início, uma morte era uma pedra bastante pesada para carregar. Mas com o tempo foi diminuindo o tamanho dessas pedras, para que ficasse mais cômodo carregá-las. Deixou seu emocional de lado e adotou seu lado mais racional. Assim, com o tempo, era uma médica que colecionava pedrinhas. Muitas vidas foram salvas. Mas isso não a fazia abandonar aquelas pedrinhas. Até ouvir aquelas palavras. Uma pontada de emoção veio com força ali onde a mulher dizia faltar um coração. E a médica fugiu para seu consultório. Deixou suas pedrinhas se transformarem em lágrimas e, como nunca antes, desabou em choro. Mas foi aí que ela pegou o estetoscópio sempre pendurado no pescoço, colocou nos ouvidos e pôs no próprio peito para ouvir seu coração. Esse simples gesto a fez retomar a racionalidade de antes: afinal, havia um coração ali. Engoliu o choro. Limpou as lágrimas. E foi colecionar outras pedras. Colecionar mais perdas.

amor · defeitos · paixão · romance

A arte de lapidar

Enveloped between a pleated thought – Tran Nguyen
Não, ela não era perfeita. Sim, de fato, isso ninguém é. Mas no caso dela, ela era cheia de imperfeições. Dessas imperfeições que fazem uma pessoa ser mal falada. Porém, ele via nela um brilho especial. Algo que não via em outra mulher. Algo que só ele conseguia enxergar. E, por isso, acabou se envolvendo com ela. Passou por muito baixos. Mas, foi valorizando cada momento alto, que transmitia boas influências para ela. Por muitas vezes, a salvou das confusões em que ela se metia. E, assim, foi construindo uma vida juntos, vida essa que ela nunca imaginou ter. Então, o brilho foi intensificando. Mas isso não foi da noite para o dia. Foram anos, ele a lapidar aquela mulher. É que ele era incansável no seu papel de lapidá-la, pois sabia que toda pedra preciosa sempre foi um dia uma pedra bruta. E só os mineradores sortudos é que têm olhos para enxergar seus brilhos especiais.