cotidiano · ego · pobreza · realidade · sociedade

Vitrines de desejos

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Paul Klee

Meu sonho é ter dinheiro para comprar essa bolsa, mas a vida está tão difícil! – uma moça argumentou com a amiga, paradas em frente a uma vitrine de bolsas e roupas caras. Logo ali perto, um mendigo sentado no chão, próximo a uma lanchonete, encarava a vitrine de salgados sendo reposta pelo funcionário. No papelão ao seus pés, a súplica escrita – me ajudem, estou com fome, a vida está tão difícil. Desviando do mendigo, passou o jovem com os olhos vidrados no celular. Observava o aplicativo de celular como uma vitrine de meninas próximas dele, mas nenhum “match” alcançado. Talvez ele também pensasse que “a vida está tão difícil”.
Cada pessoa tem a sua vitrine dos desejos. Vitrines que doem no ego e outras que doem no estômago mesmo. Dores específicas de cada um com sua vida tão difícil.

amor · cotidiano

Pensamento de final de dia

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Gert Jan Slotboom

Esqueci de te agradar. O dia passou e nem senti falta de te surpreender. Não senti falta de ver tua felicidade. Não vi sentido em gastar um pouco da minha energia para te satisfazer. Mas isso me deixou meio inquieto. Será o princípio do fim? Será que já não gosto de ti? Será o cansaço do relacionamento ao invés do cansaço da minha vida tão impregnada de uma rotina que não te inclui? Não sei resposta para nada dessas inquietudes. Mas sei que também não tive medo de responder sim para elas. Não me senti mal no final do dia. Apenas deixei o dia passar. E já absorto nesse sono fadigado de um dia qualquer, imagino o que serei sem ti. E já faço planos… Ah, quantos planos!

cotidiano · liberdade · rotina · Sem categoria · vida

Pausa na vida

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Mysterious Connection-1 – Tarak Mahadi

De repente, todos os seus dramas diários se esvaíram. Uma completa apatia preencheu seu tanque de combustível mental. Parou na vida. Não conseguiu distinguir exatamente o que levou àquela pausa tão desnorteadora. Apenas não via qualquer sentido em se esforçar tanto naquela rotina em que estava inserido. Não sentia ânimo para continuar a melodramatizar os desafios do cotidiano. Mesmo tantos prazos correndo próximos do fim, mesmo tantas pessoas ao redor motivando-o a seguir e mais: a conseguir cada vez mais! Mesmo com tanta coisa por ocorrer, simplesmente parou. E aquele dia pareceu tão sem sentido e ao mesmo tempo tão libertador! Respirou sem pensar em nada e apenas desejou não desejar nada. Mas acabou desejando no final mais dias como aquele. Por mais pausas apáticas. Por mais tempo em que o tempo escapando pelos dedos pouco importasse. Apenas queria uma dose diária disso tudo no meio dos seus tantos dramas da vida. Talvez seria essa apatia um combustível menos prejudicial ao seu meio ambiente mental. Talvez… Ou não… Pouco se importava com isso, afinal. Pelo menos, não naquele breve momento de pausa da vida.

cotidiano · realidade · rotina · sociedade

A cidade que não para

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Silêncio na multidão – André Crespo

A cidade que não para, em uma de suas ações, recebeu aquele andarilho de braços abertos, abraçou-o forte, deu-lhe boas vindas e o soltou de imediato. Disse, meio apressada, que ele se virasse. Que ele se cuidasse. Pois ela não cuidaria dele. Eram muitos por ali. Eram tantas coisas por acontecer. E ela, a cidade, não podia parar por ele. Ela, afinal, nunca pararia. Por ninguém. E naquela correria, pela primeira vez depois de tanta andança, ele sentiu-se acolhido. Por mais irracional que parecesse, foi naquele mar de gente que tenta se virar e se cuidar sozinha, que ele se sentiu bem recebido. Ele era mais um naquele todo. Naquela cidade que acolhia qualquer andarilho e indivíduo, que pudesse se virar e se cuidar sozinho. Por isso, o andarilho ali resolveu parar. Pois por mais parado que ele ali estivesse, ele sempre estaria em movimento. Afinal, ele viveria dali por diante na cidade que nunca para.

cotidiano · realidade

Reflexões (i)lógicas

Mary Jane Ansell

 

Não podia dizer que era uma pessoa sozinha. Tinha muitos amigos. Vivia dias movimentados. Sua cabeça estava quase sempre a mil por hora. Seus dedos, sempre teclando para a conectar ao mundo. E, de vez em quando, dormia acompanhada para satisfazer seus apetites. Mas, apesar disso tudo, não conseguia fugir daqueles momentos. Quando as notificações do celular silenciam. Quando a mente reduz a velocidade. Quando ninguém aquece sua cama. Quando nenhum amigo a recorda. E, assim, sozinha, no final de um longo dia, apenas o som do nada a rodeia. E um sentimento de grande vazio preenche seu peito. Por alguns instantes, desacelera e para de correr atrás do mundo. Nota o ser que há ali dentro de si. E sente aquela estranha sensação de que algo está errado na forma como todos estão vivendo. Pensa no porquê de todos estarmos correndo de nós mesmos. Tentando nos manter conectados a todos e ao mesmo tempo a ninguém. Fugindo para aquele fim de estarmos juntos, mas no fundo isolados. Porém, logo ela fecha os olhos. Adormece. E amanhece de novo. Para um mundo em que a solidão não tem lógica.

cotidiano · família · rotina · sociedade

Solidão acompanhada

Supper Time – Horace Pippin
– Como foi seu dia, filha? – Foi bom. Normal. E o seu, pai? – Trabalhando muito. Ambos olharam para a mãe, dona de casa. Não perguntaram a ela como foi seu dia, pois já sabiam que nada demais teria ocorrido por ali, já que nada demais ocorria na vida deles – que saíam de casa, entravam em contato com todo tipo de gente e situações diversas – como que seria diferente ali dentro daquela casa? E não era diferente, de fato. Ao final do jantar – que era uma repetição do almoço – pai e filha se dirigiam aos seus quartos. Davam boa noite. Fingiam educação. Fingiam se importar com que a noite do outro fosse boa. E a mãe – que ficava para trás, para limpar a sujeira e organizar a bagunça – observava todo aquele fingimento automático da rotina. Observava que, ao fecharem suas portas, eles mergulhavam nas suas solidões. E seguiam assim: sozinhos, porém acompanhados. Em quartos vizinhos. Em uma vida compartilhada. Que quase sempre não levava a nada.
cotidiano

Cidade prostituta

Alta – Mário Fresco
Aquela cidade era como uma prostituta velha. Cujas rugas são o que há de mais atraente nela. Cujos lábios eram pintados da cor da moda, para se manter atualizada.  E seus clientes mais comuns eram jovens a procura da experiência exata. Uma velha prostituta, eternizada pelos gozos mais sinceros. Que trabalha manhã, tarde e noite. Pois combustível para o prazer nunca lhe faltou. Aquela cidade, mais conhecida pela sua universidade, recebia de braços (e pernas!) abertos uma leva de universitários. Todos com sede de conhecimento e de prazer. Recebia e se despedia deles, quase todos os dias! E era prostituída, abusada, acariciada, elogiada, xingada, engrandecida… Desde memoráveis séculos passados. Sempre grata por cada um que por sua cama passasse.