amor · casamento · cotidiano

Relacionamento interessante

The bed, the chair, the dancing watching – Eric Fischl
É desolador ver dia após dia minha velha companheira se esforçar tanto para manter nosso relacionamento interessante. Tem dia que amanheço com ela entre minhas pernas, debaixo dos lençóis. Tem tarde que ela me serve uma taça de vinho com a esperança de esquentar o sangue para a noite adentro. Tem noite que ela se fantasia toda, finge ser o que não é, ser o que todo homem adoraria ter – de acordo com as revistas femininas de autoajuda. Mas eu nunca pertenci a esse “padrão” masculino. O tempo não mudou meus apetites… E é diante desse fato que mais me entristeço: por que razão minha esposa passou a me desconhecer? O que a faz pensar que mudei para eu a querer mudada? Será a velhice e sua perda de memória? Será a rotina e sua ânsia de mudar e enfraquecer os relacionamentos? Não sei. Só sigo a observando, até ver aonde tudo isso vai nos levar.
amor · casamento · sonho

Justo subconsciente

Quarto de hotel – Edward Hopper
Um dia, sonhou que traía seu marido. Acordou assustada, com tamanha repulsa do sonho, que chorou com raiva de si mesma. Imaginar praticar tamanha injustiça contra aquele que tanto dedicava amor a ela era um absurdo. O que o seu subconsciente tinha em mente para se manifestar daquele jeito? Não entendia. Até que no dia após o sonho, uma amiga a chamou para conversar. Muito cautelosamente, a amiga contou-lhe que havia visto seu marido traí-la. E, para piorar, ainda registrou o fato em fotos e vídeos. A sonhadora, diante daquela terrível notícia, compreendeu o recado dado pelo o seu subconsciente. Trair seu marido talvez não fosse uma má ideia. Injustiça contra um injusto traidor… Talvez, justo seja!
amor · casamento · sociedade

Amargo acordar

Sleeping Woman – Tamara de Lempicka
 Acordou pela primeira vez ao lado da esposa. Olhou as pálpebras dela ainda fechadas. Os lábios entreabertos, por onde passava uma respiração leve. Ao invés de se sentir encantada com aquele momento, se sentiu estranhamente amarga. Aquele seria mais um dia em que teria que encarar os olhares alheios surpresos e indignados. Pois aquela mulher ao seu lado era a razão dos seus dias terem se tornado cheios de críticas, sussurros mal intencionados, comentários falsos e sorrisos amarelados. Acabou se apaixonando por uma mulher de uma maneira que nenhum outro homem a fez se apaixonar. E com essa paixão veio todo o preconceito feroz da sociedade. Casada e amada, ela ainda não tinha certeza se seria capaz de enfrentar uma vida daquele jeito. Amargurada com aquele pensamento, fechou os olhos. Preferiu voltar a dormir.
amor · casamento · cotidiano

A espera

Girl in white dress – Hollis Dunlap

A espera pelo marido começava ao entardecer, depois que todos os afazeres de casa já haviam acabado. Ela sempre lembrava o início do casamento: a pontualidade do marido em casa, disposto a jantar ao seu lado. Em seguida, sentia na alma as lembranças mais recentes de um marido que se atrasava, sem justificativas e sem paciência para nenhuma conversa.  Aquelas esperas já faziam parte de sua rotina. Até o velho sofá já tinha o formato do seu corpo. Suas noites passavam num sofrimento calado. Assim como os bons sentimentos que daquele casamento se afastavam.

amor · carta · casamento

Carta de divórcio

 

The dream – Pablo Picasso
 
Eu quero a ilusão calma de uma manhã sem ti. Eu quero o alívio de acordar do pesadelo de tê-lo por perto quando em vez. Eu quero o vazio da sala, quando bates a porta e sais gritando ao vento o quanto sou ingrata. Ingrata? Claro, não agradeço mesmo teus alardes, teus insultos de homem machista sem freio e tua burrice de homem que pensa que manda em casa. Eu continuo, em cada anoitecer, a desejar a infinitude das tuas noitadas, embriagadas e traíras, só para não ter que olhar na tua cara. Prefiro a cama só minha, pois ela é mais calorosa sem teus nojentos roncos.  Mas, acima de todos esses quereres, eu apenas quero que me compreendas, que me realizes e vai, de uma vez só, embora. Pois “a boa hora” da partida já passou há muito tempo. Vai! Em péssima hora, mas apenas vai! E gaste todos os teus escrúpulos com outra mulher, pois essa mulher, que te escreve essa carta, se apaixonou por outra pessoa: ela mesma! Completamente apaixonada por mim, te mando para bem longe – seu ingrato!