beleza · realidade · sociedade

Lamento feminino

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Ilustração de Henn Kim

Colocou a digital na máquina e registrou final do expediente. Saiu segurando o choro. De ódio. Alcançou o ônibus que levaria até sua casa. Lá sabia que iria desabar. Ela acabara de receber uma reclamação do seu chefe. “Você deveria se arrumar melhor, usar uma maquiagem mais marcante”. Na sua frente, uma avaliação de que ela não tem tido bom desempenho. Mas ela sabia que o desempenho dela não tinha nada a ver com sua aparência. Ela era a melhor funcionária do setor. A empresa era que estava sendo passada para trás pela concorrência, que tinha visão mais moderna sobre o mercado. Porém, passar a culpa para a falta de um batom, um salto agulha ou decote, talvez, era muito mais fácil. Só mais uma atitude que marcava a mesmice tradicionalista e ultrapassada daquela empresa. Estava repleta de ódio por isso! Todos os seus méritos profissionais, alcançados com muita dedicação ao longo dos anos, não serviria para aquele chefe? Sentiu-se menosprezada! E se fosse um homem, teria que se maquiar? Não conseguiu segurar o choro de ódio até chegar em casa. No ônibus, ela sabia que estava sendo observada. Certamente iriam sussurrar ou imaginar que era mais uma mulher sensível sofrendo em público… Lamentos de ser mulher numa sociedade hipócrita.

beleza · defeitos · sociedade

Indignadas

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Voltage – Dorothea Tanning

“Vim para resgatar minha dignidade”. Ouvia aquilo de quase todas as mulheres que atendia no salão de beleza. Ela, com todo profissionalismo que possuía, sorria em retorno àquele comentário e desenvolvia a sua arte de manicura e pedicure com desenvoltura. Porém, esse tipo de comentário nunca a deixava em paz. Uma inquietude se instalava ali dentro de sua cabeça e a fazia se questionar sobre aquela tal “dignidade” que as mulheres diziam ter ou não com base em unhas feitas e pintadas, ou cabelos tingidos e escovados, ou sobrancelhas desenhadas e por aí vai. Que tipo de dignidade era essa que só se resgatava em salão de beleza? Que tipo de mulheres “dignas” insistíamos em ser e incentivar com base nesses critérios superficiais? Aquilo a deixava indignada! E ao mesmo tempo que notava tal indignação, sorria de si mesma… Olhava suas unhas sem esmaltes, seu cabelo natural e concluía: tem razão eu estar “indignada” mesmo! E isso não a incomodava, preferia a falta dessa dignidade superficial. No fundo havia uma semelhança entre ela e aquele grupo de mulheres: todas encontravam dignidade num salão de beleza. Ela, por meio de seu trabalho que amava fazer. Elas, por meio do resultado do trabalho daquela. E, assim, cada uma seguia com a dignidade que achavam merecer.

beleza · sociedade

Uma rápida observação masculina

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Michael Carson

Não sou nada observador. Confesso até que já cometi garfes, passei por situações complicadas e até já perdi uma namorada por ser completamente desatento. Mas cá estou eu sentado em um shopping, sozinho, apenas para ver o tempo passar, e acabo de notar algo estranho: por que essas mulheres todas estão usando o mesmo calçado? Por que esse mesmo padrão de roupa? Não que eu me importe com isso, mas deve haver alguma coisa muito estranha por trás desse mundo feminino. Talvez eu não seja um ser o bastante iluminado para compreendê-las. Ou seria o que elas chamam de moda? É, “moda”… Essa é aquela palavra chave que vivo ouvindo das mulheres ao meu redor. Mais estranho ainda! Elas gostam disso? Será que elas não percebem que essa tal moda as deixa desinteressantes? É, acho que não vou ter respostas… Melhor eu continuar desatento, pois assim não noto essas estranhezas e consigo achar interessante uma mulher por aqui. Tudo para ver o tempo passar…

beleza · felicidade · liberdade · sociedade · vida

Maria (a)diversa

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Sem título – Ana Maria

Disseram-lhe que era bonito ter cabelo liso, então alisou. Contaram-lhe que era muito prazeroso se relacionar com homens, então se relacionou. Insistiram que o futuro era ser “doutora”, então se graduou. Mas ninguém sabia dizer ou dar palpite do porquê ela nunca se sentiu plenamente bem consigo mesma. Ainda que alisada, bem relacionada e graduada, nada parecia a completar. Então, começou a contestar todos aqueles dizeres. Adversou cada um daqueles comportamentos que teve ao longo da vida. E, sem ouvir mais opinião alheia, passou a ouvir suas próprias opiniões diversas. E se compreendeu essencialmente diversa. Voltou aos cabelos crespos vivos. Viveu relacionamentos livres com mil gêneros. Deixou de ser chamada de “Doutora” e insistiu em ser chamada pelo seu nome e sobrenome – pois aquilo era o que a identificava de verdade. Passou das adversidades de uma vida padronizada para a diversidade de sua vida livre. Viveu feliz.

amor · beleza · casamento · morte

Olhar de elogios

Freay’s tears – Gustav Klimt
O marido nunca foi homem de elogiar. Mesmo assim ela aceitou viver ao lado dele. É que havia algo mais poderoso que o elogio: o olhar dele. Todas as vezes que ela se arrumava bem, o marido a olhava de uma maneira única, um olhar cheio de paixão e admiração. Era esse olhar que a enchia de graça e que a fazia tão bem. Porém, a velhice veio e o marido acabou cego. E a mulher teve que aprender a viver sem aqueles olhares apaixonados. Permaneceu ao lado dele, por consideração a todos os anos de amor. Mas perdeu a graça de antes. Até o dia em que, nos braços da morte, o marido cego a encarou no vazio e falou: “Você é a mulher mais linda que já conheci. Nunca deixou de ser. E certamente agora você deve estar encantadora. Obrigado por me permitir viver ao seu lado”. Quem ali estivesse ou por ela passasse, veria uma viúva cheia de graça, como nunca se imaginou ser possível ver.
beleza · velhice

Retrato

Erasing herself 2 – Roberta Coni
“Querida, por que se vestir assim? Essas tantas maquiagens não te deixam tão bonita”, a avó observava a neta se arrumar. Como resposta a esse palpite, a menina gritou “olha quem vem falar de beleza para mim, feia como a senhora é! Me deixa ser feliz, sua…” E completou o insulto listando os defeitos físicos da velha avó, antes de sair para festa. No outro dia, acordando cheia de ressaca, a neta encontra no espelho do quarto um retrato em preto e branco de uma moça que era a sua cara. Assustada com tamanha semelhança, correu até a avó pedindo explicações. “Essa sou eu, na sua idade”. A moça ficou sem palavras e a avó continuou: “é só para te dizer que tome cuidado com suas palavras e seus conceitos. Se você tiver a sorte de viver o tanto que eu vivi, é muito possível que acabe tão feia como eu sou. E espero que você tenha essa sorte, não para que você pague pelo o que me disse, mas para que você aprenda que, no final, beleza pouco importa. Não construa sua felicidade com base na sua beleza, querida. Senão, quando chegar à velhice, será uma completa infeliz”.

amor · beleza · leitura · romance

Romance

Woman Reading – Pierre Auguste Renoir

 

Na espera pelo ônibus de todo dia, se apaixonou pela leitora sorridente. Mas vivia amargurado pois não conseguia tirar os olhos da moça das páginas que ela levava sempre consigo. Aquele sorriso e sua leveza diante da narrativa o encantavam de tal forma que decidiu um dia chamar sua atenção. Depois de muito hesitar, iniciou uma conversa com ela. Recebeu como resposta a fisionomia mais raivosa que já vira na vida. Assustado com tamanho ódio expressado, ele percebeu que a beleza da moça só poderia ser encontrada durante suas leituras. Infelizmente não havia espaço para ele na vida dela. E ela sem um livro não seria assim tão encantadora. Decidiu não mais intervir. Porém, dedicou seu tempo a se imaginar personagem dos livros dela. Aí então, a namorou. E viveu um amor digno de um romance.