aprendizado · autoconhecimento · feminismo · vida

Realmente ser

daria conto
Daria Hlazatova

Passeava pela calçada da sua rua, despreocupada, como há tempos não se sentia. Carregava nas mãos os calçados sociais do trabalho, que acabara de deixar para trás. Pés descalços na rua e não se importava com a poeira citadina que ia se acumulando ali no seu passo descompassado. Com o respirar tranquilo, soltou o cabelo e deixou formar as ondas naturais para os lados que bem quisessem. Não tinha que se arrumar mais para ninguém. Nem formatar alguma imagem para ser admirada. Tampouco mandar mensagem avisando que saiu do trabalho para dar satisfação àquele cara, mais um no rol dos “ex”. E mesmo desempregada, desacompanhada e desarrumada, nunca sentiu tamanha liberdade e satisfação pessoal explodir dentro do peito como naquele momento. Finalmente conseguiu, depois de muito planejamento, entregar-se ao acaso desplanejado de uma vida liberta. Aberta a ser a mulher que realmente era. Quem realmente queria ser.

amor · autoconhecimento · felicidade · liberdade

Entre magia e mentiras

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Meghan Howland

Acordei tão cedo essa manhã, recordando o dia em que vi a mágica ocorrer no teu olhar. Eu disse que não acreditava nos dias em que não podemos voar. Voar livremente. Não acredito, ainda, meu amor. Somos todos criaturas capazes de voar. Mas todas essas mentiras, que nos apreendem no chão, são tudo o que nos ensinam desde pequenos. Só para continuarmos pequenos demais. Tu sabes quais são essas mentiras que não podemos pronunciar. Não podemos questionar. Não somos feitos para pensar. Pensar… Voar! Naquele dia, meu amor, eu falei verdades para ti. Doeu em mim também. Mas te fiz o convite para voar comigo. Livres. E nesse instante, vi a mágica ocorrer no teu olhar. Voamos juntos, tão alto! Fomos tão longe… Mas tu não conseguistes me acompanhar no voo. As mentiras que te contaram voltaram a pesar nos teus pés. Como âncoras, te puxaram e tu voltastes ao chão. À mesmice. Ontem voltei a encarar o fundo do teu olhar e o que vi foi um profundo vazio. Dói em mim, meu amor, reconhecer que tu preferes não voar. E, por mais que te ame, prefiro a mágica da liberdade ao vazio dos pés no chão. Opto por seguir essa magia – que todos temos! – e deixo para trás as mentiras que nos aprisionam. Por isso, sigo meu voo sozinho.

autoconhecimento · saúde · vida

Reiniciar o sistema

ismael nery
Ismael Nery

Foi preciso o corpo desligar para que ele acordasse da vida que o matava dia após dia. Acordou para dentro de si. Enxergou o que não enxergava mais, depois de anos se sacrificando para viver algo presumivelmente ideal. Trabalhava tanto, num ritmo frenético. Pagava as contas em dia, mas elas não findavam por completo, só se multiplicavam. Era servo das obrigações. Escravo da eterna necessidade de consumir e progredir financeiramente. Porém, em tantos anos assim, nenhum progresso em saúde física e mental ele havia alcançado. Nesses critérios, só involução. Por isso, seu corpo desligou. Não morreu, mas lhe serviu como um susto para que passasse a olhar o que realmente importava. Para que despertasse da ilusão que é crer que felicidade está na conta corrente com saldo positivo, ainda que a mente fique com energia em saldo negativo. Desligou e depois reiniciou na conexão certa.

amor · autoconhecimento · liberdade · paixão · sedução

Adeus de vendaval

panzer
Panzer

Querido, cansei de suas sutilezas. Quero um companheiro mais efusivo. Vou em busca agora de viver dias mais intensos. Pois decidi que sou mulher que merece declarações de amor profundas. Versos concretos. Amor de tirar o fôlego. Sexo que seja um vendaval. Gestos diários de furacão. Sei que isso irá te surpreender, pois nunca pareci uma mulher que gostasse de um relacionamento tão escaldante. É que isso só descobri depois de viver esses anos mornos ao teu lado. E não julgo que tenha sido tempo perdido. Muito pelo contrário! Teu amor sutil, teus gestos de calmaria, teu tratamento de brisa, fizeram eu me conhecer ainda mais. Descobri essa mulher ávida por intensas loucuras amorosas. E tenho que saciá-la. Por isso, digo adeus, querido. Deixo-te com gratidão. E desejo que encontre uma mulher que seja brisa morna e estável para ti. Pois eis algo que já não sou.

autoconhecimento · defeitos · família · força

Um ser forte

sage
Small Portrait – Kay Sage

“Não sou forte o bastante para mudar”. Confessou. As lágrimas já serviram de demaquilante há meia hora de choro antes da confissão. O rosto despido, mostrava aquilo que ela lutava tanto para esconder: fraqueza. De onde vinha, da forma como foi criada e dentre as pessoas que vivia, ser fraco era vergonhoso. Seja homem ou mulher, tinha que ser forte para tudo. Mas a vida acabava de lhe colocar num fogo cruzado. Diante daquelas pessoas, que chamava de família, depois de muito lutar, teve que baixar as armas e deixou exposta sua ferida que há tanto sangrava. Era fraca. Não conseguia mudar. Não tinha essa força toda que parecia ter. Porém, depois de confessar sua fraqueza, de pensar que ali havia perdido a batalha, sentiu na ombro a mão pesada do comandante. A voz do seu pai nunca pareceu tão certa: “acabo de presenciar uma demonstração de força que nunca havia visto antes. Levanta-te, filha, continua tua batalha no conforto daquilo que és, contra os desafios que surgirem para tentar te impedir de continuar a ser”. E ali aceitaram quem ela era. Ali ela aprendeu sobre o que faz uma pessoa guerreira. Afinal quem é forte o suficiente para reconhecer e demonstrar suas fraquezas?

aprendizado · autoconhecimento · ego · felicidade · vida

Vertigem do ser

meditation
Meditation –  Patrick Whelan

Aventurou-se em se conhecer por inteiro. Passou os dedos pela pele do seu próprio braço e terminou se abraçando. Depois de tanto tempo se dedicando para sua auto compreensão, descobriu-se como um precipício. Entendeu porque causava vertigem aquela aventura de se entender de verdade. Aquele frio na barriga, aquela sensação de uma pena deslizar nas palmas dos pés descalços e aquele arrepio na espinha dorsal: eram todos sinais daquela insana tentativa de contato com o seu mais íntimo ser. E quão íntimo ela conseguiu atingir! Sorria, boquiaberta. Estar de olhos fechados para o mundo agora era estar de olhos bem abertos para o universo que era o seu eu. Mas isso tudo não era egoísmo, não. Na verdade, somente após se compreender universo, é que ela compreendeu que, em essência, todos eram universos. Não dava para menosprezar, discriminar, ignorar pessoas que são tanto! São todos precipícios, que poucos se aventuram a mergulhar. Mesmo aquelas pessoas, que parecem ser superficiais, não se resumem a uma planície existencial. Cada um carrega dentro de si universos inteiros. E essa verdade tinha acabado de descobrir em mais uma meditação, essa vertiginosa aventura em que se envolveu.