amor · sofrimento · solidão

Obra abandonada

 

jabuh conto
Rafael Albuquerque – “Jabuh”

Encontro-me como uma construção inacabada. Graças ao nosso fim prematuro. O que me tornei é essa estrutura arquitetônica grandiosa de algo que viria a ser. Mas nunca foi. Investi tanto material para nossa construção. Tanto empenho emocional. Tanta dedicação pessoal. Mas você não entrou com a mesma força e crença no empreendimento. Em certo momento, eu parecia o sócio idealista. Você, investidor curioso e sem compromisso. Só você não notava a construção que estávamos criando. Tudo foi só por curiosidade sua, não é? Se foi por isso ou não, agora pouco importa. Acabei abandonado. Aqui, minhas estruturas de concreto seguem estáticas. Sigo acumulando poeira. Do ar que restou daquela época em que estávamos juntos, poeira que aqui se concretizou. E é isso que ainda respiro.

 

amor · casamento · feminismo · força · paixão · sofrimento

Por força, da força

magritte
René Magritte

Ela se apaixonou pela força dele. Entregou-se sem saber que o relacionamento a levaria a força para anos de uma vida nunca desejada. Ao longo desses anos, descobriu que a força dele era tamanha também nas imposições de como ela devia se comportar. No tom de voz aumentado quando algum desentendimento surgia. No jeito de olhar a repreendendo em público. E entre quatro paredes,na força do sexo em horas indesejadas. Mas, aos poucos, ela ia percebendo que essa força revelava uma fraqueza descomunal existente naquele homem. Foi se descobrindo mais forte que ele, dia após dia. Sentia-se mais forte que ele quando separava sua vida pessoal da profissional e, apesar dos problemas, conquistava cada vez mais espaço mundo afora. E os méritos alcançados lá fora não a impedia de manter tudo organizado dentro de casa. Tornou-se mais forte que ele, quando começou a questionar as imposições e comportamentos daquele homem fraco. E tomou toda a força que restava nele para si, quando acabou com o relacionamento e se libertou, sem medo, para continuar a viver do seu próprio jeito forte de ser.

amor

Habitat

Erin Elizabeth
Erin Elizabeth

Toda vez que te encontro sinto como se eu tivesse passado pela primeira vez pelo caminho que me leva para uma nova morada. Eu já sei o endereço – pois é minha residência. Nome de rua, número e CEP, na ponta da língua. Mas é caminho novo, recente, então sigo observando as referência de cada esquina. Atenta. Mapeando o caminho da minha nova casa. Até chegar à porta de entrada. Tenho a chave que abre. Tenho a permissão para adentrar – afinal, a casa é minha. Mas tremo. Porque é um espaço novo. Ao qual estou me habituando. No qual estou aprendendo a viver. E, em êxtase, empurro a chave no trinco. Giro e cada destravada é um prazer que não sei dar nome. Adentrar a nova morada e saber que é espaço meu me faz arfar em calmaria. O conforto de estar em casa faz valer a pena cada atenção desprendida ao longo do caminho. Por isso, casa nova, abraço antigo, pessoa que serve de morada, sempre é um encontro único, de residência e residente. Ter a chave é vencer o frio na barriga por viver um amor que me habita. Que é habitat. Que me faz habitante.

amor · carnaval · romance · tristeza

Amor de carnaval

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Vânia Mignone

Pintei meu rosto com as cores do teu gosto. Sinalizei meu olhar com purpurina para te encantar. Sai com a alegria mais sincera que eu possuía. De bloco em bloco, cantando tuas músicas preferidas. Registrei todo meu percurso, joguei no mundo virtual, só a espera de te encontrar no real. Mas o samba acabou, o pagode passou, o axé deixou de retumbar. Nem todo álcool sustentou meu arfar. As dores no corpo – já não tão novo como nos primeiros carnavais – se espalharam até o calcanhar. Mas a pior dor foi por aqui não te encontrar. Nem contigo dançar. Ou na tua boca mergulhar. E esse foi o primeiro carnaval sem ti. O que devo fazer? Esperar até o próximo fevereiro para te ver? Não dá para saber. Mas penso que sim. Já que é de carnaval em carnaval que esse amor se faz. Sigo te amando. Enquanto durarem as cores na avenida. Enquanto no meu rosto brilharem as purpurinas.

Sinto que vou esperar. Já que amor de carnaval tem disso de ser alegre e esperançoso. Ainda que o resto do ano seja incerto e desastroso. Sigo o passo, o ritmo, até te rever.

amor · poesia · romance

Toda poesia em ti

ana laura torquato
Ana Laura Torquato

Toda poesia cabe no teu olhar. A depender do dia, da hora ou breve instante. Já li poesia concreta enquanto está concentrada no teu trabalho e em busca de solução dentro da vastidão da tua mente pensante. Já li poesia simbolista enquanto ora aos teus deuses por dias melhores. Leio quase sempre poesias parnasianas enquanto se olha no espelho, se pinta ou retoca as cores que gosta de ter no rosto, não pelos outros, mas porque acredita na “arte pela arte”. Também leio muitas poesias sociais e marginais em todas as vezes que ajuda quem precisa, que levanta críticas políticas, que convida e encanta pessoas a agir em prol do bem de todos. Porém, das poesias que leio no teu olhar, o par que mais gosto é formado pelas poesias romântica e as eróticas… Ah, como sou grato por ser leitor exclusivo desses versos que só teu olhar consegue compor e fazer transitar tão rápido de um para outro. Leio todas essas poesias em ti e não me canso. Só me inspiro. Só me faz querer ler mais e mais. Cada verso que cabe no teu olhar.

amor · sociedade

Como água

paulo d campos
Ilustração de Paulo D. Campos

Você era como uma hidrelétrica. Imponência misteriosa. Parecia carregar dentro de si uma profundidade repleta de águas vividas. Para quem é acostumado a conhecer córregos e observar rios passageiros, você foi alguém inalcançável e impenetrável. Mas criei coragem. Muita coragem. Fui até você, troquei as primeiras palavras e mantive firme o olhar de quem quer em ti mergulhar. E você abriu as comportas do seu ser. Deixou-se fluir como outro rio qualquer, que no início parece volumoso, mas tem momentos de inconstância e, no final, deságua no mesmo oceano de seres humanos. Todos similares entre si. Em substância. Como água.

amor · passado · realidade · romance · rotina

Sem vida

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Marina Esmeraldo

Acordou ao lado de mais uma estranha. A luz do celular despertou uma dor de cabeça que provavelmente o acompanharia pelo resto do dia. Saiu daquela cama desconfortável. Pensou no trabalho atrasado. Saiu com a boca impregnada pelo álcool da noite passada. Invadiu o trânsito da cidade que já fervia. Retornou àquele ambiente que chamaria de casa, se não fossem todas as lembranças que ainda transmitia. Memórias de uma vida que achava perfeita demais para ter sido vivida por ele. Mas que se findou e o deixou órfão no mundo. Deixou-o ser mais um homem a repetir suas tarefas dia após dia. Mais um humano que fugia das lembranças. Que corria para os braços de experiências desconhecidas. Só para preencher o vazio que ficara. O vazio que pesava sua existência no presente. De um passado que tinha nome de mulher. Uma mulher que não sabia onde estava mais. Que vive em outra conexão. Ou que nem vive mais. Como ele, que apenas segue sem vida.