aprendizado · autoconhecimento · feminismo · vida

Realmente ser

daria conto
Daria Hlazatova

Passeava pela calçada da sua rua, despreocupada, como há tempos não se sentia. Carregava nas mãos os calçados sociais do trabalho, que acabara de deixar para trás. Pés descalços na rua e não se importava com a poeira citadina que ia se acumulando ali no seu passo descompassado. Com o respirar tranquilo, soltou o cabelo e deixou formar as ondas naturais para os lados que bem quisessem. Não tinha que se arrumar mais para ninguém. Nem formatar alguma imagem para ser admirada. Tampouco mandar mensagem avisando que saiu do trabalho para dar satisfação àquele cara, mais um no rol dos “ex”. E mesmo desempregada, desacompanhada e desarrumada, nunca sentiu tamanha liberdade e satisfação pessoal explodir dentro do peito como naquele momento. Finalmente conseguiu, depois de muito planejamento, entregar-se ao acaso desplanejado de uma vida liberta. Aberta a ser a mulher que realmente era. Quem realmente queria ser.

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