família · preconceito

Vaidade escondida

ronquillo
Fatima Ronquillo

O cheiro de esmalte afagava sua tristeza. Era madrugada, todos da casa dormiam. Antes de ir dormir, escondida no banheiro do seu quarto, pegou o esmalte que comprou na farmácia perto da escola, dizendo que seria para sua mãe, e foi pintar as unhas das mãos. Delicadamente pintadas, ficava horas admirando aquelas lindas unhas que tinha. Queria mantê-las com aquela cor, mas não podia. O relógio marcava 2 horas da manhã, pegou a acetona e fez todo o ritual para tirar os esmaltes antes de dormir. Por vezes, era para tirar maquiagem do rosto. Cosméticos esses comprados e jogados fora, longe de casa, após toda noite em que ela fazia aquilo escondida. Porque na verdade a menina vaidosa, que tinha dentro de si, estava num corpo chamado Pedro. Tinha entre as pernas um órgão masculino que não sentia ser seu. Acordava todas as manhãs como um menino para a família, para a escola e para toda a sociedade. E passava todos aqueles anos ali dentro se questionando até quando teria que viver escondida. Porque não tem vaidade no mundo que maqueie aquela tristeza que vivia.

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