realidade · religião · sociedade

Proteção

salgado
Sebastião Salgado

Acordou naquela madrugada gelada e pediu em pensamento “Senhor, me protege!”. Não sabia ao certo pra quem dirigia esse pedido, quem era aquele “senhor”, de quem era aquele Deus, se poderia ser o seu Deus também. Não sabia. Ocorre que no dia anterior, vagando por aí, fazendo o que era de costume seu – “pedir uma ajudinha” – acabou passando em frente a uma igreja. Lá de dentro saia o discurso de um homem falando que todos deveriam pedir “Senhor, nos proteja, com força, com fé. Pois no mundo de hoje, em que as ameaças estão a cada esquina e o Estado não nos assegura, só com proteção de Deus…”. Ele ficou ali próximo à igreja e continuou pedindo por ajuda, “uma moedinha”, mas notou que as pessoas de fé que saiam dali, desviavam dele ou fingiam não o ver ou o ouvir. Assim como quase todas as outras pessoas. E por um instante ele notou que talvez ele fosse uma daquelas “ameaças” que ficam a cada esquina e que o Deus daquelas pessoas estariam o afastando delas, para as proteger. Pensar naquilo o abalou profundamente. “Como conseguirei ajuda dessas pessoas, se tem um Deus protegendo elas de mim?”. E pelo resto do dia, ele desistiu. Dormiu com as poucas cobertas que tinha. Com o oco rotineiro na barriga. E acordou naquela madrugada fria, com a sensação de que sua sede por fome agora era bem menor do que a sede por proteção divina.

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