beleza · defeitos · sociedade

Indignadas

dorothea
Voltage – Dorothea Tanning

“Vim para resgatar minha dignidade”. Ouvia aquilo de quase todas as mulheres que atendia no salão de beleza. Ela, com todo profissionalismo que possuía, sorria em retorno àquele comentário e desenvolvia a sua arte de manicura e pedicure com desenvoltura. Porém, esse tipo de comentário nunca a deixava em paz. Uma inquietude se instalava ali dentro de sua cabeça e a fazia se questionar sobre aquela tal “dignidade” que as mulheres diziam ter ou não com base em unhas feitas e pintadas, ou cabelos tingidos e escovados, ou sobrancelhas desenhadas e por aí vai. Que tipo de dignidade era essa que só se resgatava em salão de beleza? Que tipo de mulheres “dignas” insistíamos em ser e incentivar com base nesses critérios superficiais? Aquilo a deixava indignada! E ao mesmo tempo que notava tal indignação, sorria de si mesma… Olhava suas unhas sem esmaltes, seu cabelo natural e concluía: tem razão eu estar “indignada” mesmo! E isso não a incomodava, preferia a falta dessa dignidade superficial. No fundo havia uma semelhança entre ela e aquele grupo de mulheres: todas encontravam dignidade num salão de beleza. Ela, por meio de seu trabalho que amava fazer. Elas, por meio do resultado do trabalho daquela. E, assim, cada uma seguia com a dignidade que achavam merecer.

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