beleza · carta · tristeza

Carta a Narcisa

 

Girl combing her hair – William McGregor Paxton
 
Cada traço doce do seu rosto a encantava tanto que ela costumava passar horas inteiras se observando. Talvez por apenas se admirar, ela não conhecesse nenhuma outra beleza mais acolhedora do que a sua própria. Um dia, sem ela perceber, seu pai mandou um pintor desenhá-la numa tela enquanto ela se admirava no espelho. Aquela pintura permaneceu escondida por muitos anos. Seus pais morreram e a velhice veio murchando a imagem da bela moça. Ela pensou que não iria suportar o resto da vida sem a sua beleza para admirar e caiu numa profunda tristeza. Porém, seu irmão, sentindo ser aquele o momento certo, mostrou a pintura e entregou uma carta do pai falecido assim escrita:
“Filha querida, é uma pena que somente agora que a velhice chegou para você é que poderei falar algumas palavras e você poderá ouvi-las com atenção. Não pense que a felicidade existe na sua imagem. Acredite que as mais belas coisas estão longe do seu espelho. Aproveite o resto da sua vida e viva de verdade. Estou morto, porém se estivesse vivo olharia para o fundo dos seus olhos e diria que agora, velha e desfocada, você está incrivelmente mais linda do que a moça bela que apenas perdia a vida a se admirar. Beleza de verdade está na vida, filha. E por acaso, você já viu alguma imagem pintada da vida por aí? Com amor, seu pai”.
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