morte · pai

Lembranças

Mynheer’s Lunch – William Michael Harnett

Reuniu todos os pertences do seu pai falecido. Cada objeto era agraciado com memórias fortes, antes de ser depositado na caixa. O cachimbo ainda tinha vestígios do fumo queimado e cheiro de doença; a velha caneca de cerveja tinha nas dobradiças o escuro da despreocupada sujeira; o último jornal, com todas as letras ‘o’ pintadas – passatempo este que ela também pegou como mania; até mesmo os fósforos das esquinas da casa estavam ali para testemunhar os modos do seu pai. Era sempre bêbado, sempre bruto e sábio. Tinha sempre nos olhos o desejo de mais fumo e a vontade de ver sua filha feliz. Agora jaziam dentro da caixa todas as lembranças de uma personalidade inesquecível. Ela tentaria, mesmo assim, esquecer, pois uma vez seu pai disse, depois de uma longa tragada no cachimbo: “Leve suas lembranças todas para o fundo de uma caixa e esqueça-as. Você não precisa delas para ser feliz.”.

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