carta · morte

Carta de despedida

 
Dutes Motes Dancing in the Sunbeams – Vilhelm Hammershoi
                “Querido pai,
É provável que esteja com lágrimas aos olhos e que agora esteja vendo de modo embaçado o meu corpo sem vida na sua sala de estar. Escolhi morrer aqui, porque já não aguentava mais a casa do meu marido – aquele homem soberbo a quem o senhor deu minha mão em casamento. Desculpe-me, pai, mas não fui forte como minha mãe. Ela, sim, era guerreira e suportou uma vida inteira do lado de um homem que a traía. Você! E não pense que eu não sabia disso; eu sempre soube. Passei minha vida odiando suas traições. Passei minha vida esperando por um casamento íntegro, fiel. Mas veja como o destino é ousado: casei-me com um homem que também adultera a união sagrada. Fui mais uma mulher traída; sofri igual minha mãe; senti na pele os mesmos ferimentos da infidelidade.
Resolvi morrer, o quanto antes. Não era essa vida que pensei viver. Então, desculpe-me, pai, pois sei que sou a última pessoa que sobrou na sua vida e sei do imenso amor que sente por mim. Agora vejo que serei o motivo para fazer o senhor sentir na pele o peso de seu pecado. Viverás, meu pai, até o fim da sua vida lamentando seus erros. Deixo meu perdão em nome de minha mãe; espero em oração suas lágrimas e lamentos por sua conduta. Não se esqueça, estarei esperando…”
O homem, caído de joelhos, chorando pesarosamente, com o corpo da filha morta nos braços, entregou-se ao martírio dos infiéis.
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3 comentários em “Carta de despedida

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