amor · sofrimento · solidão

Obra abandonada

 

jabuh conto
Rafael Albuquerque – “Jabuh”

Encontro-me como uma construção inacabada. Graças ao nosso fim prematuro. O que me tornei é essa estrutura arquitetônica grandiosa de algo que viria a ser. Mas nunca foi. Investi tanto material para nossa construção. Tanto empenho emocional. Tanta dedicação pessoal. Mas você não entrou com a mesma força e crença no empreendimento. Em certo momento, eu parecia o sócio idealista. Você, investidor curioso e sem compromisso. Só você não notava a construção que estávamos criando. Tudo foi só por curiosidade sua, não é? Se foi por isso ou não, agora pouco importa. Acabei abandonado. Aqui, minhas estruturas de concreto seguem estáticas. Sigo acumulando poeira. Do ar que restou daquela época em que estávamos juntos, poeira que aqui se concretizou. E é isso que ainda respiro.

 

aprendizado · autoconhecimento · feminismo · vida

Realmente ser

daria conto
Daria Hlazatova

Passeava pela calçada da sua rua, despreocupada, como há tempos não se sentia. Carregava nas mãos os calçados sociais do trabalho, que acabara de deixar para trás. Pés descalços na rua e não se importava com a poeira citadina que ia se acumulando ali no seu passo descompassado. Com o respirar tranquilo, soltou o cabelo e deixou formar as ondas naturais para os lados que bem quisessem. Não tinha que se arrumar mais para ninguém. Nem formatar alguma imagem para ser admirada. Tampouco mandar mensagem avisando que saiu do trabalho para dar satisfação àquele cara, mais um no rol dos “ex”. E mesmo desempregada, desacompanhada e desarrumada, nunca sentiu tamanha liberdade e satisfação pessoal explodir dentro do peito como naquele momento. Finalmente conseguiu, depois de muito planejamento, entregar-se ao acaso desplanejado de uma vida liberta. Aberta a ser a mulher que realmente era. Quem realmente queria ser.

amor · casamento · feminismo · força · paixão · sofrimento

Por força, da força

magritte
René Magritte

Ela se apaixonou pela força dele. Entregou-se sem saber que o relacionamento a levaria a força para anos de uma vida nunca desejada. Ao longo desses anos, descobriu que a força dele era tamanha também nas imposições de como ela devia se comportar. No tom de voz aumentado quando algum desentendimento surgia. No jeito de olhar a repreendendo em público. E entre quatro paredes,na força do sexo em horas indesejadas. Mas, aos poucos, ela ia percebendo que essa força revelava uma fraqueza descomunal existente naquele homem. Foi se descobrindo mais forte que ele, dia após dia. Sentia-se mais forte que ele quando separava sua vida pessoal da profissional e, apesar dos problemas, conquistava cada vez mais espaço mundo afora. E os méritos alcançados lá fora não a impedia de manter tudo organizado dentro de casa. Tornou-se mais forte que ele, quando começou a questionar as imposições e comportamentos daquele homem fraco. E tomou toda a força que restava nele para si, quando acabou com o relacionamento e se libertou, sem medo, para continuar a viver do seu próprio jeito forte de ser.

aprendizado · depressão · sofrimento · tristeza · vida

Baseado em dores reais

nataliefoss
Natalie Foss

Chora-se, mas é preciso descongestionar as narinas para respirar, pois a vida segue e respirar pela boca é incômodo. Como é perceptível: o corpo ensina. É preciso aprender com a força e o fluxo de vida que pulsa, independente dos dramas, frustrações, sonhos impossíveis que cultivamos na mente. Há sempre um impulso de realidade vibrando nossa existência no sentido de superar cada choro, cada dor. Toda lágrima seca. Todo choro cansa. A vida continua. E constatar isso, após tanto lamento e confusão mental, é tão prazeroso quanto o respirar livre e calmo após o choro recém vivido. Experimente só a calma pós-pranto… Haverá de confirmar! E uma ficha – dessas que demoram a cair, mas sempre caem em algum instante – é que: baseado em dores reais, isso é viver.